Entrevista Gabriella Azevedo

Gabriella Azevedo, 24 anos.

Publicitária e empreendedora de sonhos.


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Eu engoli muito calada. Na rua, eu sempre fui chamada de louca, porque eu tinha os cabelos coloridos, piercings e tatuagens. “Ah, mas não dói muito?”, “Parece marginal!”, “Olha a maconheira!”.

Sempre tem um estereótipo incluso que tatuagem é coisa de presidiário, e eu sempre falei: “Olhem bem para a minha cara de presidiária, amanhã eu posso te dar um susto no meio da rua”. Afinal, por que eu não posso quebrar isso? Por que tanta hipocrisia por trás desse conceito tão pequeno?

Minha sorte é que sou bem paciente, mas me torno um pouco agressiva quando alguém pisa no meu calo. Não me julguem por ser irreverente, original, estilosa, ou como queiram chamar. Quem me conhece sabe da minha índole e personalidade, e que essa capa que dizem ser agressiva se desmonta.

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Minha experiência com o preconceito e o bullying começou desde cedo, na escola. Logo que mudei da minha cidade natal (Brasilia) e vim para maceió, durante o meu segundo dia de aula, por eu ter um sotaque diferente das pessoas do nordeste, um menino me deu um murro na boca, me mandando “falar direito”. Sem dúvidas foi a pior boas vindas que eu poderia ter. Tive que mudar de turma e passar por todo um novo processo de inclusão, foi bem complicado.

Durante toda a  infância eu sempre fui diferente das minhas amigas. Eu era a mais gordinha da sala e, por isso, eu sempre tinha que ouvir alguma piadinha. Eu gostava de brincar com os meninos da rua, jogar bola, andar de bicicleta, jogar vídeo game. Nunca gostei muito de boneca! Não bastasse, ainda usava aparelho nos dentes (aquele freio de burro, sabe?), óculos e sempre gostava aquele pretinho básico.

Enquanto todas as meninas já tinham namorado, eu nunca tinha tido um; Então, até eu aceitar o processo de mudança, aceitar que eu não podia comer todos os brigadeiros do mundo, todos os doces, sim, eu sou muito apaixonada por doces, foi um processo de mudança intenso pra mim. Eu tinha que deixar de fazer o que eu gostava muito pra seguir o padrão de beleza imposto pela sociedade. Mas eu decidi não seguir o padrão imposto quando resolvi colocar piercings, fazer tatuagens e também aceitar que do meu jeito, eu também poderia ser feliz, mesmo diferente.

Eu lembro como se fosse hoje de uma situação: era Carnaval, os meninos fizeram uma rodinha em torno de mim e minhas amigas e na hora que eu fui passar o último menino, disse: “Abre para a baleia passar”, e nesse dia, acabou o meu Carnaval.

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Foi do meu amor aos doces e a minha síndrome de patinho feio que tudo começou. Então, eu sabia que de alguma forma teria que mudar. Eu fui procurando formas e coisas que me completassem, e quando eu descobri na tatuagem uma forma de extrapolar os meus limites e superar todos os traumas que eu podia ter, eu vi que ninguém mais poderia ser maior ou melhor que eu.

Tatuagem dói, é caro, é original e sei que na época que fiz, poucas pessoas tinham a coragem de dar a cara pra bater. O preconceito existia e era muito pior que hoje em dia.  Quando eu decidi escrever: “Believe (Eu Acredito)” na minha barriga, era pra todos os dias que eu me olhasse no espelho acreditar que eu posso fazer diferente, que eu posso acreditar em mim. Ela me lembra diariamente no que eu acredito, e mesmo sendo uma decisão de “fuga”, nas minhas tatuagens eu me liberto todos os momentos que eu a olho, sem esquecer dos meus propósitos e quem eu realmente sou.

O mercado de trabalho, a sociedade e a vida é meio cruel (e sem noção) na hora de te julgar. Nunca pensei que uma porção de tinta em cima de uma pele poderia ser parâmetro medidor de conhecimento, boa índole e status social. Ainda me lembro como hoje no dia que fui em uma médica para fazer um exame admissional e no papel constava o tópico “doenças de pele”, lá descrevia algumas opções e por fim, tinha a opção “outros”, prontamente a médica pegou sua caneta e escreveu no espaço vago: tatuagem.

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Ter sido vítima disso tudo mudou completamente a minha vida, acho que por isso pude me tornar porta voz deste projeto e ajudar pessoas a quebrarem o seu silêncio.

Meu amor por doce não acabou e pelas tatuagens, menos ainda! Está para nascer alguém no mundo que possa me calar, que possa mudar o que eu penso, o que eu sinto e o meu direito de me expressar. Acredito que seja uma recompensa do mundo eu estar aqui hoje. Ter conseguido juntar pessoas que acreditam na possibilidade de fazer um futuro diferente, e que podem dar uma resposta para a sociedade, sendo o que bem desejam ser. Por isso eu digo, acredite em você, no seu potencial. Acredite que ser diferente é normal, só precisamos fazer a sociedade entender isso. Você tem que ser feliz porque você quer ser feliz, porque deseja ser feliz, e que não importa o que falem, que duvidem, você pode ir lá e fazer diferente!


(♬) Uma música que quebra o meu silêncio é: Manifesto @ Fresno / Lenine / Emicida

Por quê? Simples: “É sobre isso que o manifesto fala, nem ser menos e nem ser mais, ser parte da natureza, certo. Ao caminhar na contramão disso, a gente caminha pra nossa própria destruição”

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5 comentários sobre “Entrevista Gabriella Azevedo

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