Entrevista Bruna Costa

Bruna Cristina Costa, 21 anos.

Estudante de Psicologia.


Bruna 01

Eu tenho vitiligo desde os três anos. Porque eu tive muitos problemas na esfera familiar com a minha mãe. No caso, não foi minha mãe quem me criou, eu fui criada pela minha avó. A minha mãe mesmo, eu não tenho contato direito. A gente ia atrás de todo tipo de cura, e ai acabou reduzindo muito cedo, com 14 anos já tinha sumido do rosto. Aí eu não aguentava mais viver de remédio e parei.

Quando eu era pequena, eu passava por várias situações mas poucas coisas eu percebia porque eu não entendia o porque das pessoas me olharem de maneira estranha. Minha mãe me dizia que eu era linda, todo mundo lá em casa na realidade. Ela mostrava crianças que tinham problemas na televisão e dizia: “Você não tem que se preocupar com o problema que você tem, porque você não tem nada!”. E eu ficava me sentindo mal, porque eu ficava triste, me sentindo diferente.

Hoje em dia eu fico mais triste porque eu me lembro de cenas que me magoavam quando eu era pequena. Tinha uma menina que sempre vinha falar comigo na fila do lanche e ela, uma vez, veio tirar sarro com as amiguinhas dela e perguntou: “Por que você tem essas manchas?” (na época era muito forte), e eu disse a ela que eu tinha colocado maquiagem. E ela disse: “Então, se é maquiagem, você pode vir sem amanhã”. Só que não deu certo, elas ficaram rindo de mim o intervalo todo.

As pessoas olhavam estranho pra mim também quando eu saía na rua, a minha mãe chorava todos os dias e também eu não podia sair de casa sem protetor solar, tinha toda aquela prisão, era muito ruim. As pessoas falavam as coisas e eu não entendia por que me tratavam diferente, e olhavam pra mim diferente, porque para mim eu não tinha nada, eu era perfeita, como minha mãe dizia.

Bruna 02

Hoje as pessoas lidam melhor, porque quase não dá pra ver. No rosto principalmente, quase ninguém vê que eu tenho vitiligo. Ainda sou muito limitada pra fazer algumas coisas. Por exemplo, quando eu era pequena, eu tive que ensaiar muito para fazer uma apresentação de dança, e era dança do ventre, tem que dançar com os pés no chão. Colocaram a gente pra dançar no cimento quente de meio dia. A minha pele embaixo do pé é muito sensível, e eu não aguentei, o meu pé literalmente fritou embaixo. E o pessoal do colégio não entendia, ninguém entende, até hoje eu tenho que tomar cuidado com essas coisas. As pessoas lidam melhor, não acham mais tanta frescura, e não tiram mais tanto sarro.

Bruna 03

Eu não sabia nem o que era o vitiligo direito. A minha mãe, que hoje em dia diz que sempre que ela me via chegando na esquina da escola, chorava. Porque ela via as duas bolas gigantes e brancas no meu corpo e ela não aguentava, ficava agoniada, indo atrás de uma nova cura, uma nova solução. Eu não via isso, eu não tinha nem noção de que isso existia. Hoje eu fico muito triste porque eu não percebia, porque eu penso que eu poderia ter me cuidado, tentado feito alguma coisa. Hoje eu tenho um arrependimento muito grande, porque eu não tinha alguém que chegasse e me ajudasse, porque quando você é pequena é muito difícil.

Bruna 04

Minha concepção em relação ao preconceito mudou. Principalmente quando eu vejo alguém com algum problema facial, ou até mesmo com vitiligo, eu chego até a achar bonito e interessante, sabe. Eu sempre gostei das coisas muito diferentes. Então eu achava bonito, eu acho bonito até hoje.

O meu cachorro favorito é o dálmata, porque ele tem várias manchas no corpo e, eu me identifico muito com ele, porque eu também tinha várias manchinhas.

Eu encaro, eu vejo isso tudo diferente hoje em dia. Quando vejo alguém praticando preconceito de alguma forma, eu não consigo exatamente ficar com raiva, porque penso que talvez a pessoa não deva ter nem noção do que esta falando. Hoje eu não tenho mais tanto ódio.

Bruna 05

Acho que primeiramente você tem que se informar, pra saber o que está acontecendo para depois poder julgar ou criar qualquer conceito. No meu caso, eu não sabia nem que alguma coisa acontecia. Você tem que saber que tem alguma coisa acontecendo, pra você também saber o que pode fazer pra se ajudar. Porque quando você passa por isso, você percebe que a pior coisa que tem é ficar se lamentando, sentado, achar que é tudo muito ruim, que o mundo é muito feio.

Você tem que procurar fazer alguma coisa, porque quem está perdendo é você. E ai quando a gene se informa e passa a conhecer melhor a situação, você consegue brigar e argumentar contra alguém que for te atingir e coloca-lo no devido lugar.

♬) Uma música que quebra o meu silêncio é:  This is Halloween @ Marilyn Manson

Anúncios

Um comentário sobre “Entrevista Bruna Costa

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s