Entrevista Aldo Holanda

Aldo César de Oliveira Holanda, 26 anos.

Sou estudante de Jornalismo.


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Na escola, sofri preconceito enquanto criança, por ser mais gordinho. Apelidos jocosos. Já no mercado de trabalho, Maceió se mostrou uma cidade que ainda tem seus preconceitos e conservadorismo bem enraizados. Há alguns anos atrás, ainda tinha cabelo grande, e somado ao uso de piercings e alargadores, a resposta que eu sempre ouvia era que: “Infelizmente, você não se encaixa no padrão da nossa empresa”. Quanto a profissão, há diversas ressalvas na família no que diz respeito ao “meu futuro”, enquanto jornalista. As preocupações a respeito de questões econômicas, com a bela frase: “que futuro tu vai ter, ganhando salário de jornalista? profissão que não precisa nem de diploma”.

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Posso falar de alguns exemplos pontuais de preconceito durante a minha vida. Mas as questões que mais me marcaram, por exemplo, foram situações onde, em outro estado (e região) fui vítima de xenofobia. Ser chamado de “paraíba”, no Sul, não foi uma das experiências mais legais.

O preconceito, no que diz respeito às vestes, ou ao simples fato de ter tatuagens e alargadores. Infelizmente, a sociedade ainda julga as pessoas baseado nesses pressupostos. Isso já me custou relacionamentos amorosos, como também um distanciamento da minha própria família. Entretanto, o que mais marcou foi algo que, de fato, vai além de mim. Ter depressão criou situações, no mínimo, curiosas. No auge de 2014, as pessoas ainda tendem a achar que isso não passa de uma “besteira”. Frases como: “Deixa de frescura, e levanta! – Não há razões para ficar com esse drama todo! – Isso vai passar, é só uma fase difícil!” entre tantas frases e episódios que ouvi e vivi nos últimos anos.

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Meu ciclo social é misto. Ou seja, grande parte dos meus amigos também são adeptos das mesmas características que eu, entretanto, também há pessoas das quais possuem suas ressalvas. Em algum momento foi preciso quebrar esse esteriótipo, de que “todo tatuado é doidão” ou descompromissado com a sua própria vida. Algumas pessoas que não concordam com essas escolhas, acabam por respeitar, ao perceber que a tinta na minha pele, ou os plugs nas orelhas, não alteram minha personalidade, quem de fato sou. Mas isso me custou relacionamentos, e profundas frustrações com pessoas que, supostamente, deveriam aceitar quem eu sou, como sou.

Quanto a depressão, infelizmente, a sociedade, quase que no seu geral, não sabe lidar com isso. O que é compreensível, visto que é um problema muito denso para ser debatido pela grande massa. Mas hoje, talvez seja necessário entrar no amago destas questões, porque elas custam vidas. Minha família não aceita o fato de eu ter me tornado alguém muito mais introspectivo. Meus amigos me descrevem como alguém fechado, sem senso de humor, pesado. São definições genéricas e que só refletem uma parte do meu comportamento, não de quem eu sou de fato.

Durante muitos anos foi doloroso demais ouvir essas coisas, em tom de brincadeira, mas que se encaixam no reflexo de um problema muito mais sério do que eles, infelizmente, não querem entender ou enxergar.

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Sou grato a educação que meus pais me deram. E não só a educação do lar e da escola, mas a liberdade de ir ver o mundo e entender suas diferenças. Porque deveria me sentir ofendido por ser nordestino? É uma região de uma grandiosidade cultural e histórica que não pode ser diminuída pela conduta ignorante de alguns, mesmo que no próprio país.

Quanto à forma como as pessoas me olham, por conta das modificações corporais, de certa forma já me acostumei ao entrar em um lugar, e ver todos me encarando. Realmente acho uma pena que isso ainda leve a um julgamento tão duro, por parte da sociedade em si. Mas hoje a aceitação destes comportamentos é uma corrente crescente. E no fim das contas é preciso aceitar que isso será pra sempre. São marcas no corpo que ficaram contigo, e que possuem seus significados. Lembrar deles, me faz ouvir piadas e relevar, pois seus significados são muito mais importantes pra mim, do que a opinião de quem nem ao menos sabe meu nome.

Lembro de situações em que minha mãe ficava constrangida ao andar comigo. Hoje, se há alguma piada jocosa, ela toma partido e faz piada com quem comenta algo. O que é engraçado, e motivo de orgulho pra mim. Hoje ela aceita quem eu sou, o filho dela, é a mesma coisa que ela criou. Que as tatuagens, ou qualquer outro artifício, não me mudam em nada.

Para aceitar que tinha depressão, precisei percorrer um longo e doloroso caminho. Tudo isso começou com a morte prematura do meu pai. E por anos negligenciei cuidar do abalo emocional que isso gerou. Me neguei a pedir ajuda, falar ou sequer pensar nisso. Precisei perder muita coisa, muitas pessoas pelo caminho, para  só assim entender que não estava só magoando os outros, mas, principalmente, a mim mesmo. Entendi que eu não poderia cobrar ou esperar de terceiros, um entendimento a respeito do que eu mesmo não compreendia. Não poderia jogar a responsabilidade de me sentir “melhor” em alguém, ou algo. Quando entendi que eu deveria lutar comigo mesmo, que eu deveria me olhar no espelho e perguntar “o que quero fazer da minha vida?”, entendi que havia chegado (ou passado) da hora de fazer algo por mim. Procurei ajuda especializada, e em suma, ouvi a mim mesmo. Ouvi o que eu queria de mim, do meu futuro, dos meus sonhos. O caminho ainda é longo, mas daqui pra frente, é sem volta.

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Sei que as questões que se acometeram sobre mim são um tanto quanto genéricas, mas mexeram comigo, e ajudaram na construção de quem sou de fato. Enxergar a forma como a sociedade me vê foi chocante, em primeiro momento, mas depois ajudou a compreender o conceito de diferença.

Ao entender essas diferenças, me tornei alguém muito mais tolerante com o mundo. Me forneceu noções de respeito que, infelizmente, a escola, por exemplo, não abrange enquanto formadora. Me proporcionou também lições que meus pais não poderiam me dar, por não viverem essa pluralidade cultural.

Hoje, diante de todos estes acontecimentos, além de me aceitar como indivíduo, consigo aceitar as diferenças com convicção. A maioria das pessoas não age de forma preconceituosa diante de seus próprios pressupostos. Às vezes, isso apenas se trata de ignorância, no sentido de falta de instrução mesmo. Vai chegar o dia onde esses comportamentos, tratados como aberrações, serão vistos apenas como mais uma expressão da diversidade cultural.

O que eu posso dizer para as pessoas que passam por diversas situações com o preconceito é que se mantenham fortes! Não adianta querer que o mundo te aceite, se tu não consegue aceitar quem é. Não queira achar que o mundo é obrigado a aceitar teus comportamentos, escolhas e afins. A cada passo dado, saiba que isso irá gerar consequências, e quanto mais tu aceitar as mesmas, menos doloroso será o caminho. Nunca ache que a culpa é tua, por viver alguma situação de preconceito ou descriminação.

Só existe oprimido, porque existe um grande opressor.Não deixe que o medo de ser olhado de cima, te limite a tentar ser quem de fato tu é. Então alimentem suas convicções, e defenda cada uma delas.

Estamos vivendo em um mundo onde precisamos imprimir nossas digitais nele, e isso não será feito sem convicção e força para suportar o caminho. Cuide muito bem de quem tu é, porque as pessoas vão reconhecer tua força em defender o que tu acredita. Seja você, não o que esperam que você seja!

Não é nada fácil suportar situações dolorosas como algumas dessas citadas. Mas se há força, se há convicção, suportar o peso delas é obrigação para seguir em frente.

♬) Uma música que quebra o meu silêncio é: StrangeandUnprepared @ Copeland.

Parte do refrão da música (em inglês) diz: “E você nunca se sente bem ou mal, apenas estranho e despreparado…”. E isso se encaixe bem comigo. Independente de como eu esteja, estou sempre tentando me adaptar a situação, para entende-la. Mesmo não estando preparado para lidar com ela.

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