Entrevista Jo Araujo

Joelma Araújo, 28 anos.

Sou pesquisadora e economista.


Jo 01

Como atividade física eu pratico o pole dance. E também pratico o pole street com minhas amigas. Teve uma polêmica há um tempo atrás, quando a gente sobe em uma placa na rua para brincar, as pessoas criticam, dizem: “Olha, vocês só devem fazer isso no cabaré”. Ou então, quando as pessoas perguntam o que eu gosto de fazer, se eu gosto de, por exemplo, andar de bicicleta, eu digo: “Não, eu faço pole dance”.

Não é fácil e exige treinamento, esforço físico e muita técnica. Existe um preconceito muito grande em torno dessa atividade no nosso país, que ainda nem é conhecida como atividade física. O pole dance é mais conhecido como uma dança, e se fosse mesmo só isso, ainda estava bom. Mas é uma dança ligada aos cabarés, muito mais erótica quando as pessoas comparam.Na verdade, é uma coisa artística em todos os níveis, que não necessariamente está ligada à parte erótica, e que também é uma atividade esportiva. Até Copa Internacional de pole dance tem, tanto feminino quanto masculino. Muita gente ainda é ignorante a respeito desse assunto.

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Outra coisa que também está relacionada ao preconceito é quanto o meu nome. Prefiro ser chamada de Jo, porque as pessoas sempre me associam à vocalista da Banda Calypso, que também se chama Joelma.

Então, quanto ao fato de eu ser vegetariana, todos os dias eu escuto alguma piadinha. É muito chato. Por exemplo, quando você vai almoçar, você senta com o pessoal. Geralmente, os amigos nem tanto, porque eles são seus amigos. Mas, se você está em um ambiente de trabalho (isso sempre acontece), e faz seu prato, todo mundo pergunta se eu quero bife, churrasco, em todo o almoço é isso. As pessoas perguntam se eu só vou comer folha. Se isso acontecesse uma vez ou outra, eu até tiraria na esportiva. Mas não estou brincando: são todos os dias, em todas as refeições.

Passei por um desconforto depois que fiz um bolo vegano, sem ovos, nem leite, nem derivados de animais, e levei para o pessoal do trabalho provar. E aí é que entra o preconceito sob essa perspectiva, o pensamento de que os veganos e vegetarianos só comem alface, e que não tem nada para comer, que são todos desnutridos, que não tem nada de gostoso para se comer. Levei esse bolo, todos gostaram, e eu disse que não tinha colocado nada que fosse derivado de animal, e mesmo assim está uma delícia. Quando ofereci para outra pessoa que sempre faz bolos, a pessoa perguntou se era bolo de carne moída. Ouvir uma coisa dessa logo de manhã, é um saco.

É muito desconfortante, as pessoas realmente têm muita ignorância a respeito desse assunto. E não é só ignorância, porque eu também tenho as minhas, pois ainda estou aprendendo. Sou vegetariana há sete meses e vegana há um, muita coisa eu ainda estou conhecendo. O lance é estar aberto a tudo, a conhecer as coisas, mas algumas pessoas não estão abertas. Elas atacam, criticam, xingam, isso que é desconfortável.

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Ter sido vitima do preconceito mudou a minha visão no sentido de que algumas pessoas ficam levando tudo só para o lado da irritação. Às vezes a pessoa sofre preconceito e acaba reagindo de forma violenta com quem o cometeu.

Eu tenho percebido que, na verdade , isso ocorre pela ignorância das pessoas, porque elas desconhecem e também nem sempre estão abertas a conhecer. Então, é muito bacana quando você promove uma acessibilidade ao assunto, expõe as cosias para que as pessoas que sentem preconceito ou passam por isso, se coloquem e expliquem para os que não entendem que não é difícil fazer o que fazem, que não é difícil obter a minha alimentação mesmo sendo vegana.

O preconceito fez com que eu entendesse que, do modo que eu puder ajudar as pessoas para que elas conheçam o que eu vivo, é melhor.  Porque você larga o “pré-conceito”, e começa a formar, de fato, o conceito.

Jo 04

Eu proporciono acessibilidade sobre o assunto. Ou, então, eu coloco um questionamento. Pergunto o porquê de as pessoas pensarem assim, falarem assim.

É como disse Saramago: “Aprendi a não tentar convencer ninguém. O trabalho de convencer é uma falta de respeito, é uma tentativa de colonização do outro”.

Cada um tem suas percepções e tem os seus limites. Ninguém me colonizou, ninguém me colocou nessa. Eu fui quando eu senti, no meu coração, de ser. Mas, durante 27 anos, eu fui onívora. E isso tudo para mim é uma coisa muito recente. Também tenho que entender o meu próprio processo.

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Nós precisamos nos unir e colocar uma resposta amorosa para os agressores. Não adianta combater violência com violência. Isso é uma coisa muito clássica, parece um clichê, que muita gente fala, mas não executa. Por exemplo, eu ando de bicicleta como meio de transporte, o cara passa e grita, ou buzina, pede para eu sair do meio da rua, como se eu não tivesse direito de estar lá. Olhei para ele, sorri e dei um tchauzinho. Quebrei-o completamente, o preconceito, o modo de ele lidar. Outra vez eu abracei um motorista que parou o carro em cima da ciclovia. Ainda dei os parabéns por ter estacionado ali. Ele ficou desconsertado e pediu desculpa. Se eu agisse de uma maneira bruta, não teria sido assim.

♬) Uma música que quebra o meu silêncio é: Garbage @ BleedLike Me

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2 comentários sobre “Entrevista Jo Araujo

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