Entrevista Priscila e Bruno

Priscila Fernandes, 28 anos.

Sou mãe em tempo integral.

Bruno Barros, 25 anos.

Sou Design Gráfico e Tatuador.


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Priscila: Sofri preconceito por conta das tatuagens, e por ter as crianças. Na verdade, o preconceito com a nossa família teve início quando a gente começou a se tatuar. Depois, quando viram que não tinha mais jeito, que a gente ia continuar se tatuando muito, em quantidades absurdas, eles começaram a aceitar.

Para quem vê de fora, o pensamento é diferente. Dizem que pessoas modificadas e tatuadas são drogadas, e outras coisas. Eu não sei o que é que as drogas têm a ver com o fato de alguém ser tatuado. Eu não sei qual é a relação que as pessoas fazem com isso. Isso sempre mexe também com a minha capacidade de ser uma boa mãe, porque as pessoas olham torto, olham estranho.

Muitos ficam questionando também meus alargadores, ainda hoje em dia. Me perguntam onde eu vou parar, se eu ainda vou fazer mais. As pessoas ficam meio desesperadas e ansiosas para saber quando eu vou parar. E eu não vou parar, eu vou continuar me riscando até eu achar que está bom pra mim, mas, até agora, eu não quero parar.

Bruno: Isso mesmo. Enquanto tiver espaço, vamos continuar fazendo minhas tatuagens.

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Priscila: Sempre acontece alguma coisa na rua. Às vezes, quando vou para algum lugar que eu sei que vai ter esse tipo de coisa, eu evito sair com as tatuagens de fora. Eu coloco uma calça, ou um short com uma blusa maior. Quando a gente vai ao mercadinho de short e camiseta fica todo mundo olhando.

Bruno: Como eu hoje sou tatuador, a galera já pensa que pela minha profissão, eu posso me tatuar todo que não tem problema. Mas quando eu era design gráfico e trabalhava em uma agência de publicidade, o pessoal me perguntava sobre eu ir para uma empresa maior e o pessoal de lá não gostar.

Priscila: Aí, infelizmente, eles iam perder um profissional incrível. Não tem nada a ver!

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E quando isso acontece, é como se você tivesse que sair na frente e mostrar para as pessoas que você é melhor que elas, para se destacar. – Bruno

Priscila: É! Isso não existe. Eu sou normal como todo mundo, viu? A gente come, a gente dorme, a gente briga. Mas eu tenho tatuagem. Eu me olho no espelho e não vejo isso tudo que todo mundo tanto vê. Às vezes me vejo em foto e penso que, realmente, estou com bastante. Mas eu geralmente não percebo, porque elas já fazem parte de mim, da minha personalidade, do que eu sou, e eu não seria a mesma se eu não as tivesse.

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Priscila: Hoje em dia, eu estou mais tranquila com situações do tipo.

Bruno: A gente, às vezes, nem percebe que está sendo olhado. Você acaba se acostumando com os olhares e os julgamentos, e uma hora, para de ligar.

Priscila: É, não percebo. Às vezes eu ainda tiro uma onda. Se for uma menina, eu mando até beijinho. Ou você desopila ou você vive na neura, e você escolheu isso para você, é a sua opção de vida, e você tem que abstrair.

Bruno: A gente tem uma aparência fora dos padrões da sociedade e tem que se acostumar com isso, com as pessoas olhando.

Priscila: As pessoas julgam de acordo com o que elas acham, de acordo com o que elas viveram. Se alguma dessas pessoas se sentar por cinco minutos comigo para trocar uma ideia, vai que eu sou igual a elas e, às vezes, até melhor. Algumas pessoas não têm tatuagem, mas vivem fazendo coisas erradas por aí.

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Ter sido vítima do preconceito mudou a minha compreensão sobre várias coisas, porque depois que você passa por isso, dói tanto às vezes. As pessoas são cruéis. Elas não pensam nem um pouco antes de falar. Eu tenho sentimentos, viu? Isso magoa, não é legal, não! Guarde para você. Não precisa. – Priscila

Priscila: Às vezes as pessoas falam com muita agressividade, perguntam como eu fiz isso comigo. Com certeza, hoje a gente consegue ver uma pessoa diferente, com atitudes diferentes, ou que tenha feito algo que não seja do nosso agrado, e parar para conversar e tentar entender o que deu errado. Para não taxar logo, ou dizer alguma coisa errada.

Bruno: Eu tenho o pensamento de que eu não conheço a experiência de vida da outra pessoa.Tento saber dela, trocar uma ideia, ver o que ela viveu, para saber por que ela está agindo daquele jeito, seja pra bom o pra ruim. É julgar uma pessoa apenas depois de conhecer ela. Saber o que ela está vivenciando ou tendo tal atitude.

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Todos somos seres humanos. Por favor, não vamos julgar os outros sem saber! – Priscila

Priscila: O meu recado que eu posso dar para as pessoas que passam por situações como a minha é que abstraia! Beijo, me liga. E não é só com tatuagem. É com cor, com cabelo, com crença. Com tudo! Se a gente cuida mais da nossa vida e do nosso nariz, a gente sofre menos e é mais feliz, né? Mas vai cuidar da vida dos outros e se dói, e sofre.

Bruno: Passe por cima. Ninguém tem nada a ver com sua vida!

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♬) Uma música que quebra o nosso silêncio é: Criolo @ Não existe amor em SP

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2 comentários sobre “Entrevista Priscila e Bruno

  1. Sou mãe do Bruno e no principio não concordava em ele fazer tatuagem, mesmo admitindo que quando jovem também queria fazer tatuagem em mim, mas na época em que eu era adolescente o preconceito era bem maior que hoje em dia.
    Hoje tenho em meu corpo cinco tatuagens feitas pelo Bruno.
    Demirei para realizar um desejo de adolescência.
    Apesar de muitas pessoas hoje en dia serem tatuadas ainda vejo preconceito em alguns olhares.
    Parabéns pelo depoimento e amo vocês.

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  2. Ai gente, tem mais é que ser feliz mesmo! Família linda!!! Já tô até imaginando como vai ser comigo e meu marido quando tivermos filhos…ele cadeirante e eu gordinha (já temos carga de preconceito só por isso) e ainda somos tatuados, aí é que as pessoas se incomodam mesmo. Mas quem disse que a gente liga?! hahaha temos a sorte de ter um ao outro, de termos orgulho de sermos nós mesmos e por isso somos felizes. Continuem assim, Priscila e Bruno.

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