Entrevista Zenitilde Neto

Zenitilde Neto, 26 anos.

Sou músico.


Zeno 1

Na minha época chamavam de CDF, mas chamam hoje de nerd. Eu passei por situações desagradáveis simplesmente por ser inteligente e ser mais recluso. Acho que de tudo, esse foi o principal preconceito/bullying que passei.

Nos intervalos da escola eu gostava de ler, e não de jogar bola como os outros. Eu ficava sentado ouvindo música e por isso eu levava tapa no ouvido e era chamado de idiota. Não tinha uma palavra muito específica que me apelidavam, porque, por meu nome ser diferente, eles me chamavam de Zenitilde como se aquilo fosse um xingamento. E eu pensava: “Como assim? É meu nome!”.

Zeno 2

Nunca tive problema com meu nome, eu gosto dele. Eu descobri há pouco tempo que significa “vindo das estrelas”. Eu nunca liguei, mas as pessoas sempre zoavam tanto o nome quanto a questão de eu gostar de ler e não gostar muito de me enturmar. Comecei a me enturmar há pouco tempo, porque eu era muito fechadão.

Antigamente eu era muito mais quieto. Gostava de encarar, ficar lá calado, só olhando para as pessoas. Eles paravam porque assim “perdia a graça”, e acabavam indo embora. Eu nunca fui de atacar, porque eu sabia que, se eu atacasse, eles revidariam e seria pior, porque assim, eles iam querer partir para a agressão física.

Eu dizia para mim mesmo que não estava fazendo nada de errado e que eu ia continuar quieto, sem fazer nada de errado. Ficava observando eles irem embora em grupo, rindo de longe, mas não dava em nada. Quando eu estava de fone de ouvido eles puxavam o fone. Eu ficava quieto, mas não ficava guardando rancor. Apenas me perguntava sempre por que eu não estava fazendo nada e sofria daquilo.

Zeno 3

Até hoje eu sou totalmente nerd. Não tem para outro. Eu gosto de jogar, de ler, me envolvo mais em conversa de leitura do que sobre mulher. Eu sou um nerd. Converso sobre tudo. Mas o que eu gosto mesmo de conversar é sobre assuntos relacionados a jogos, filosofia, e outras coisas. Hoje em dia, o bullying acabou, porque eu cresci, eu sou grande, então as pessoas pensam que eu posso acabar batendo nelas, e o jeito de usar colete e calça, as pessoas pensam que eu tenho pinta de ruim. Mas quando começam a conversar veem que eu sou legal e não é nada disso.

Zeno 4

O meu ponto de vista sobre o preconceito mudou. Um dia, analisando, pensei que muitos que usam de agressões, é porque provavelmente eles têm algum problema em casa, e ele é incomodado porque ou ele queria ser igual a mim porque uso o que eu quero, na hora que eu quero.

Alguns pensam que querem ter cabelo grande, por exemplo, e não podem ter porque o trabalho não deixa. Hoje em dia eu até relevo bastante, porque uma coisa que me fez pensar muito, é que um dos meninos que fazia muito bullying comigo no colégio, há pouco tempo eu fiz um pedido de pizza e ele veio entregar na minha casa, e ele ficou meio assim. Outros  três ou quatro meninos, na Internet, vieram me pedir desculpas, me dizer que hoje me entendem, e que por não gostarem muito de ler e de estudar, hoje não estão tão bem. Eles mesmos perceberam. Então, para mim, é fantástico, porque eu não fiz nada, não falei nada, e eles mesmos reconheceram.

Zeno 5

Um recado que eu posso deixar para as pessoas que passam por situações como a minha é que vocês devem refletir sobre o porquê desse preconceito. Não adianta você partir pra cima, porque é isso que as pessoas querem. Eles querem esse momento de agressão. Você precisa se controlar.

As pessoas preconceituosas tentam se livrar das coisas que elas acham que estão erradas agredindo os outros de diversas formas. Se você conseguir se desvencilhar ou dialogar com a pessoa, pode ser muito melhor do que você partir para cima ou ficar guardando rancor. Você é o que é. Você tem que ter certeza do que você gosta, não tem que ter vergonha de nada.

Tanto como eu do meu nome, mesmo não sabendo a origem, é o mesmo nome do meu avô, que foi muito importante na minha família. Achava legal. Nunca tive problema com meu nome. E por ser CDF, é porque eu gostava de ler, de viajar nas minhas ideias, gostava de escrever. Inclusive quando eu vi o projeto eu me interessei, pois, já escrevi um texto intitulado “Quebre o Silêncio”. Se você gosta de fazer o que você quiser, não tenha vergonha e não se intimide, que é o principal.

♬) Uma música que quebra o meu silêncio é: Otaro – Jäilbäit

As pessoas que fazem bullying chamam a gente de “otaro”. Na música, a gente reverteu, chamando essas pessoas de “otaros”.

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5 comentários sobre “Entrevista Zenitilde Neto

  1. Conheço a trajetória do zeno desde a antiga schizophrenica. É maravilhoso ver descrito um pouco de sua personalidade. Sempre foi amigável e com uma voz potente. Sucesso, zeno!

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  2. Fantástico. Muito obrigado por compartilharem esse momento de desabafo. Espero ajudar muitas pessoas com esse depoimento! 🙂

    Ahhhh, e uma pequena correção. É OTARO o nome da música. 😀

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