Entrevista Thiago Alfredo

Thiago Alfredo Oliveira, 30 anos.

Sou Técnico em Informática e em Segurança do Trabalho.


Thiago 01

Senti muita dificuldade na convivência dentro de casa. Como eu andava muito no meio da galera e era muito sociável, eu não sofria muita discriminação. Mas, dentro de casa, sempre sofri muito.

Teve um momento em que eu estava usando drogas, naquela época, a minha mãe não estava aguentando mais, eu já tinha me internado duas ou três vezes e ela não queria mais me ajudar. Nesse dia, eu decidi que iria fumar e que ou eu morria ou acontecia outra coisa.

Minha mãe disse que preferia que eu morresse.

Eu nunca fui de roubar, nem nada disso. Naquela ocasião, eu lembro que eu tinha saído de um internamento e, no mesmo dia, eu saí à noite para usar drogas. E minha mãe não sabia que eu tinha saído. Na verdade, eu voltei porque era aniversário do meu filho e eu queria passar esse dia com ele. Era a véspera do aniversário dele, eu saí para usar, eu usei tanto que não tive forças para voltar para casa, e foi aí que eu passei três dias usando. Gastei um bom dinheiro. Quando eu voltei para casa, voltei para ficar com meu filho, mas ela não queria mais conversa comigo. Eu estava tão fraco que eu caí na porta, quando cheguei. Fiquei lá até ela abrir a porta e falar comigo.

Eu tive vontade de morrer, mesmo.

Thiago 02

Eu não tive contato com ninguém fora durante a minha reabilitação. A gente passa um ano lá e faz o contato por cartas, e com algum familiar que vá visitar. Só a minha mãe que ia. Eu não sabia como iam as coisas aqui fora porque eu só via a minha mãe e ela não trazia muita notícia do mundo aqui fora.

Então, foi um ano lá dentro, trancado, desse jeito. Eu via a minha mãe evoluir. Eu a vi começar a me enxergar diferente e eu também comecei a enxergá-la diferente. Porque a gente, quando está lá dentro, persevera no sentido de que a família também busca aqui fora. E a minha mãe buscou ajuda em um grupo vinculado ao local que eu estava.

Na verdade, eu não cheguei lá querendo melhoria. Eu fui para lá porque eu queria passar um tempo “guardado” e também ganhar a confiança das pessoas daqui de fora.

Eu passei uns dois meses sem querer contribuir com meu tratamento. Eu já passei por outros lugares, e todas as vezes eu acabava saindo por briga. Toda vez que eu estava nos lugares por um mês, arrumava briga e saía. Tudo por causa desse meu jeito de retrucar tudo. Cheguei lá meio sem querer caminhar e aí, a partir de uns três meses, eu comecei a aceitar o que eles estavam colocando para mim, a pensar mais em família.

Thiago 03

A gente tirava, todos os dias, uma Palavra do Evangelho para vivenciar. Mas, um dia, era uma quarta-feira e a Palavra que saiu foi: “Amar o irmão”. Na meditação do Evangelho que o meu responsável pediu para eu fazer, eu coloquei a família nisso. Naquela noite, eu tive que acolher um irmão que chegou lá e estava doente. Era um “coroa” com mais de 60 anos, e eu tinha que passar a noite com ele no quarto. Eu tentava dormir, e ele não dormia, porque tossia muito, pedia ajuda. Eu não queria, pensei até em colocar ele para fora do quarto. Mas, sentei, refleti, e decidi ajudar o homem.

Comecei a conversar com ele, e ele, mesmo sem saber o que tinha saído no meu Evangelho daquele dia, perguntou se eu não conseguia amar uma pessoa. Eu não respondi, mas fiquei pensando. A partir dali, eu comecei a viver a passagem daquele dia. Eu tive que ficar acordado, ajudar ele, dar banho nele, fazer comida… No outro dia, eu conversei com o meu responsável e ele me disse que aquilo era fruto do início de uma caminhada. Comecei a pensar que eu tinha que obedecer.

Eu nunca obedeci nem aceitei nada. Quando eu não gostava, eu brigava. Naquele dia, eu quis buscar estar mais unido com quem estava lá. E se eu conseguia ficar unido a pessoas que eu mal conhecia, em casa eu não teria problema. Hoje, em casa, eu tento fazer dessa mesma forma que eu fiz lá.

Thiago 04

Tinha amigo meu que brigava comigo quando eu começava a usar drogas, porque eu não queria parar.

Tinha dia que eu chegava à casa de amigos e queria usar muito, mas meus amigos não queriam, e eu ia ter que ficar saindo e voltando para buscar droga. O pessoal achava isso chato. Depois que eu voltei, e até hoje, eu tenho sido muito respeitado. Sou bem aberto para essas coisas. Quem quiser usar perto de mim, usa. Mas eles me respeitam.

Hoje, eu ando em todo lugar. Até a mesma galera, de vez em quando, eu ainda visito. Eu não acho que você deve exigir muito do outro, porque a mudança tem que partir de quem está precisando. Eu não posso cobrar que os outros vivam o que eu vivi. Em relação aos colegas que eu tinha na rua, os que eu tinha mais companheirismo, assim, ao voltar, eles acharam muito bom. Hoje, eu passo a minha experiência à frente e tento ajudar outras pessoas.

Esse processo, como falei, quando eu comecei a abraçar, eu trouxe muito para mim essa palavra família. Queria que o processo desse um resultado positivo para a minha vida. Eu sempre senti muita falta do meu filho, nós sempre fomos muito ligados.

Quando eu me separei da mãe dele, ele tinha dois anos, e veio morar comigo. Só que na época da droga, eu não ficava com ele, quem ficava era a minha mãe. Ela sempre que dava, o levava nas visitas que fazia a mim. Eu tive muita dificuldade mesmo, na minha vida, com a minha irmã. A gente vivia brigando, querendo se matar. Durante a caminhada, vivenciando esse lance da família, sem vê-la nenhuma vez durante esse ano que passei lá. Mandei apenas uma carta, mas a gente acabou ficando muito próximo.

Eu sempre quis um sobrinho e ela não queria muito. Enquanto eu estava na fazenda, ela engravidou. Quando eu soube que ela ia ter um filho, eu queria que ela colocasse o nome do filho de Gabriel. Depois, a minha mãe me disse, que o nome dele seria Gabriel. Quando chegou a noite de ela ganhar bebê, eu não dormi direito. Eu tinha sonhado que ela morria. Eu ia para o jardim, para o pátio, chorando muito. Um colega meu me falou que havia conversado com minha mãe e disse que ela havia passado a noite no hospital, mas que tinha tido o filho e que ele estava bem. Mas, teve um detalhe: o coração dela parou durante o parto, três vezes. Quase morreu. Aquilo me mostrou o quanto a gente pode se vincular à família apenas pelo amor. O nosso sentimento mudou totalmente.

Thiago 05

Ter sido vítima do preconceito mudou o meu olhar, principalmente porque eu também me percebo muito preconceituoso. A gente passa a ter um conceito muito diferente do preconceito. A gente passa a enxergar outras coisas que ficam muito mais nítidas para a gente. Principalmente quando eu busco esse meu lado cristão. E aí, eu sempre falo, no grupo, na fazenda, de amor.

A gente sempre fala em amar e ajuda o próximo. E muitas vezes eu ainda me sinto mal com coisas que os outros fazem. Eu não costumo falar, mas às vezes, eu me sinto um pouco preconceituoso. Mas, tudo o que eu passei, mudou a minha compreensão de todas as formas. Por ter passado por isso, eu compreendo muito mais a situação dos outros, principalmente em relação às pessoas usuárias de drogas.

Nunca desistir. Simples assim. Um sonho só se apaga se a gente desistir dele.

♬) Uma música que quebra o meu silêncio é: Sacramento da Comunhão – Padre Zezinho

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