Entrevista Valéria Oliveira

Valéria Oliveira, 37 anos.

Farmacêutica e cirurgiã dentista.


01

O preconceito começou quando eu decidi fazer odontologia depois de casada, já tendo uma profissão e com um filho pequeno.

Quem me incentivou a começar tudo de novo foi meu filho. Era um sonho antigo que eu ainda não havia realizado, porque eu tinha feito Farmácia e, quando eu terminei, eu não procurei fazer. Foi quando eu engravidei dele, e mesmo tendo passado no vestibular, eu preferi cuidar dele.

Eu sofri preconceito dentro de casa, de ouvir todo mundo falar até onde eu iria cuidar da casa, do meu filho e conciliar com estudos. Como se mulher só servisse para ser dona de casa!

Acabei assumindo um concurso do estado, como farmacêutica e esqueci a Odontologia por muito tempo. Mas eu já tinha livros e materiais de Odontologia porque eu pretendia mesmo fazer. Um dia, quando eu estava arrumando as minhas coisas, meu filho me perguntou: “Mãe, por que você não faz Odontologia? Meu avô, meu tio e minha tia são dentistas e você tem tudo de dentista”. Eu expliquei para ele que eu optei por ele, e que estava fora da minha realidade e que eu tinha que cuidar dele. Foi quando ele disse que eu podia fazer, que ele deixava, que não ia me atrapalhar. E combinamos que ele quem entregaria o meu diploma.

03

No trabalho, a minha chefe direta disse que era inviável, disse que estava atrapalhando o trabalho, e eu não estava. Eu cumpria meus horários, fazia tudo direito. No dia do TCC tinha nove ligações dela, no dia da colação de grau queriam que eu fizesse trabalho, e eu tinha pedido férias para não me atrapalharem. É para dizer que eu não ia conseguir, mas eu consegui. Fui até o fim.

Estou aqui para mostrar a todas as pessoas que filhos não são empecilhos e, no meu caso, ele foi o instrumento para as minhas realizações. No dia da prova inclusive, ele foi doente para fazer prova comigo, foi ver o resultado e quando não tinha com quem deixa-lo, ele também ia comigo para as clínicas. A vitória de tudo isso foi minha e dele – meu filho – também. Hoje tenho amigas que voltaram a estudar depois do meu exemplo!

04

No começo foi difícil, era uma rotina toda nova, quase em horário integral. Meu filho teve que mudar a vida dele, saiu de uma escola que era só meio horário para uma escola de horário integral, porque eu não tenho ninguém em casa. Sou eu quem faz tudo. Então, eu mudei a minha rotina, e ele mudou a rotina dele também.

No começo da faculdade eu também senti, não estava acostumada com a rotina de estudos, e Odontologia  não é fácil. Eu só cultivei porque era aquilo mesmo que eu queria. Você vê aquelas pessoas bem mais novas que você e se pergunta o que você está fazendo ali, até quando eu entrei para a clínica e percebi que aquilo era realmente o que eu queria e que eu iria concluir.

05

Ter sido vítima de preconceito mudou a minha compreensão a respeito do preconceito porque as pessoas não estão acostumadas a lidar com um sonho, achavam que era besteira minha. Diziam que eu já tinha minha formação, minha casa e meu filho. Como se isso fosse um empecilho. E não foi, muito pelo contrário. Hoje eu sou dentista graças ao meu filho e à minha família. Eu me tornei dentista já depois de casada!

Eu trouxe o odontoscópio, que é um instrumento único da Odontologia e o meu filho para a entrevista, porque se não fosse ele, eu não teria tomados as decisões que tomei. Foi ele quem me incentivou. E eu achei incrível porque quando ele me incentivou a fazer, ele tinha apenas 5 anos. E hoje estou aqui, graças a ele.

02

A mensagem que eu deixo para as pessoas que passam por situações com o preconceito é que não desistam. Vá até o fim. Se é o seu sonho, vá. Depois que eu realizei, que eu ainda estava realizando, nem havia concretizado, a minha vida mudou. Eu não tinha tempo para nada, mas eu voltei a caminhar, eu perdi peso. Nesse tempo, eu não passei no vestibular, ainda cursei Dança, Ciência da Computação, até que eu entrei. Quando eu consegui, tudo era alegria para mim, porque eu estava realizando o meu sonho. E muita gente desiste de realizar um sonho por falta de incentivo ou até mesmo por causa do preconceito, por achar que você não pode.

♬) Uma música que quebra o meu silêncio é: Lulu Santos – Tempos Modernos

Porque ela fala disso, de você que vive em cima de um muro de hipocrisia, as pessoas dizem que torcem por você, que acreditam em você, e quando você tenta mudar, elas puxam você para trás.

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