Entrevista Cesar Black

César da Silva, 22 anos.

Sou publicitário.


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Sofri discriminação racial há pouco tempo por conta de uma atitude que eu tive no condomínio em tenho um apartamento, e também durante a infância toda. Quem é negro sofre disso, é que às vezes passa despercebido porque a gente chega a pensar que é inocência das pessoas.

Piadinhas como chamar de macaco, dizer que está fedendo a negro, chamar de escurinho e dizer que não vê o negro no escuro… Essas coisas sempre marcam quem é negro de verdade.

Tem coisas que não chegam a ser muito forte porque quando a gente é criança, a gente não leva tão a sério essas críticas. Mas uma vez, em um Shopping na parte baixa da cidade, eu estava em uma loja fazendo compras. Eu sempre ando no Shopping vestido normalmente, não gosto de me arrumar.Vou de bermuda, chinelo, como eu ando na rua, mesmo. Eu estava esperando a minha noiva sair do vestiário feminino e passou por mim uma senhora que tinha aproximadamente 50 anos. Eu olhei para ela e desviei o olhar, e então ela começou a perguntar por que eu estava olhando para ela e a me chamar de “nego feio”, e ela continuou a falar muitas coisas.

Como foi a primeira vez que eu tinha sofrido racismo de maneira mais violenta, só de ela estar ali me enfrentando sem motivo para isso, aquilo foi muito marcante para mim. Eu não tive atitude, até porque eu sou uma pessoa calma até certo ponto, mas nesse dia eu fui 100% calmo, fiquei quieto e calado, mas depois eu fiquei muito mal porque eu não consegui expressar a raiva que eu estava sentindo no momento.

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Recentemente, aconteceu um caso comigo no condomínio no qual eu tenho um apartamento. Temos um grupo no Facebook e eu organizo reuniões, faço palestras para beneficiar os moradores do condomínio. E aí um rapaz que faz parte do grupo, sem nada para fazer, veio dizer que eu queria aparecer, que eu sou ladrão e queria roubar o dinheiro das pessoas.

Fui falar com ele calmamente para saber de onde ele me conhecia e de onde ele havia tirado aquelas opiniões que ele tinha publicado no Facebook para todo mundo ver. Foi quando ele respondeu: “Aquilo foi uma crítica. O grupo é público, seu negro imbecil. Preto não tem autoridade”. E eu respondi: “Muito bom ver esse seu lado. Aguarde processo”. Eu divulguei nas redes sociais e muitas pessoas criticaram a atitude dele, e também publiquei nos grupos dos residenciais, que são três. O pai dele me ligou, e acontece que o rapaz é menor de idade, tem 17 anos, e estava em um grupo que não devia estar, pois era apenas para moradores. Ele teve a atitude por puro racismo mesmo, por ver um negro liderando, um negro lá na frente. Por ser um jovem que está começando agora organizando palestras e reuniões, e resolveu fazer isso comigo.

Decidi não levar o processo adiante porque eu analisei o caso da família dele. A mãe do garoto é ambulante e o pai está de benefício em casa. O pai me ligou dizendo que o filho não era aquela pessoa. Meu irmão é advogado e conduziu a conversa por mim. Eu desisti de levar o processo a frente, mas o meu irmão explicou para ele o que aconteceria caso eu decidisse seguir com o processo. Eu pedi para ele orientar o filho dele. Tive o bom coração de não levar o processo adiante por causa dos pais, que às vezes dão tudo de si para os filhos e não têm culpa.

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Minha família sempre esteve ao meu lado, inclusive durante esse fato, todos disseram para eu registrar o caso na polícia. Até porque racismo é um assunto que nunca acaba. A gente não deve se calar, tanto quem sofre quanto quem observa.

Não se esconda! Faça igual a mim, coloca a cara na sociedade, divulga nas redes sociais, para que mais pessoas possam ter essa atitude. O certo é falar, e não se calar, como eu fiz diante da outra situação do Shopping. A gente tem que ir em frente. Minha família sempre me apoiou a denunciar casos assim.

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Tem sido vítima do preconceito mudou muito a minha compreensão de ver as coisas. Eu sempre tive uma visão ampla a respeito do preconceito. Sempre gostei de participar de debates com o preconceito como tema. Não só o racial, mas também o religioso, ou o preconceito contra a orientação sexual.

Minha visão aumentou um pouco a respeito da defesa, porque quem sofre preconceito sofre de forma inesperada. Nunca se tem uma arma pronta para rebater a agressão. A gente deve se preparar mais para quando essas pessoas vierem nos atacar, a gente ter como revidar, mas de maneira inteligente, que faça o agressor repensar a atitude.

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Eu trouxe um livro com o qual me identifico, que é Administração em Publicidade, que é a minha área. Hoje o que mais me define é a minha profissão, é o que eu decidi seguir na minha vida.

♬) Uma música que quebra o meu silêncio é: Lulu Santos – Apenas Mais Uma de Amor

Escolhi essa música porque a gente vive num mundo que não sabe se vai viver o amanhã. A gente não deve calcular o amor. Não importa a cor, a raça, o cheiro, o peso, não importa. Só o amor!

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