Entrevista Carlos Nascimento

Carlos Anderson Nascimento, 31 anos.

Sou Arquiteto e Designer Gráfico.


Carlos 01

Eu sofri vários tipos de preconceito. Desde a infância, até o presente momento, eu ainda sofro. Se iniciou com a minha mãe, que começou a ficar me pressionando a respeito do meu cabelo. Antigamente, quando eu era criança, o meu cabelo era liso, mas naquela época já não era mais então comecei a deixa-lo liso. Ninguém estava preocupado com detalhes visuais ou com a estética do corpo quando mais novo. Então, eu não importei.

Quando eu fui passando de criança para adolescente, eu comecei a me preocupar com isso e quando eu menos percebi, eu estava sendo vítima de bullying. Por exemplo, quando eu me mudei para o colégio um determinado colégio bastante religioso e conheci uma galera cheia de novos pensamentos, novas visões foi tudo muito diferente. Naquela época, eles tinham um pensamento muito “cri cri”, um pouco antiquado. Então, já surgiu ai um foi outro tipo de bullying também (religioso). Mas em relação ao cabelo, teve um menino que começou a pegar no meu pé porque eu alisava o cabelo e ele dizia que o meu cabelo era “tuin”, ruim. Esse bullying em relação ao cabelo prosseguiu até 2006, que foi quando eu comecei a seguir conselhos de amigos que diziam para eu deixar ele ondulado mesmo. Foi aí que consegui me livrar desse bullying por conta do cabelo.

Para mim foi um alívio quando eu assumi isso, foi quando comecei a conhecer o meu próprio cabelo. Antes, eu não aceitava ter cabelo ondulado, para mim só servia se fosse liso. Depois que segui os conselhos dos amigos da faculdade, eu passei a começar a gostar dele, usar produtos que deixavam ele mais ondulado, mais enroladinho, e comecei a me sentir mais em paz comigo mesmo. Esse foi o primeiro bullying e eu superei ele.

Carlos 02

O outro bullying que passei na escola era porque o pessoal era muito cabeça-dura. Eu tinha muita raiva porque todo mundo rezava muito, a toda hora e a todo instante, e quando eles falavam comigo, não lembravam do que pregavam. Tinham preconceito comigo porque eu era roqueiro, porque eu gostava de desenhar coisas estranhas, me chamavam de anti-cristo, mas eu não me importava.

Eu escutava rock, desenhava caveiras, escrevia músicas… Um problema foi criado por causa disso.

Eu cheguei a fugir muitas vezes quando éramos obrigados a assistir aulas no auditório para ouvir músicas religiosas. Tudo bem, é um colégio religioso, mas por que não abrir o leque para outras religiões? Por que tem que obrigar a gente a mostrar só esse tipo de religião e dizer que tudo está ok na frente de todos? Eu detestava isso. Me escondia no banheiro, junto de outros colegas, e quando éramos descobertos, tínhamos que voltar para o auditório. O rapaz que tocava na banda, dizia que a gente não sabia de nada, que não sabíamos o que estávamos perdendo, e sentávamos novamente com raiva, porque estavam nos obrigando a fazer o que não queríamos.

Carlos 03

Quando eu comecei a fazer a faculdade, eu acabei adoecendo. Eu não sei exatamente o porquê. Segundo o meu médico, existem dois tipos de sintomas que podem corresponder a essa doença: ou ter pequenos surtos e depois de repente surta de uma forma descontrolada, ou você surta mesmo, de uma hora para outra.

No meu caso, tudo começou aos poucos e quando eu surtei a primeira vez eu não entendi muito bem. Mas o que eu descobri é que eu tenho esquizofrenia paranoide e hebefrênica.

Quando eu surtei, eu fiquei desnorteado, sem saber para onde ir ou o que fazer, como resolver… Tudo começou em 2004 quando eu tive esse surto, eu comecei a tomar medicamentos, e não sabia bem o porquê, o meu médico não explicava e eu acabei trocando de médico e entendendo melhor.

Depois disso, passei a sofrer bullying novamente. Voltei para a faculdade que eu havia trancado, com os efeitos colaterais da medicação: metabolismo e raciocínio lentos, muita sonolência, movimentos robóticos e outras coisas que o medicamento dá. Todos começaram a pegar no meu pé e eu até lembrei do que passava no colegial, que todos também pegavam no meu pé. Nessa época, eu passei a detestar tudo isso, mas eu tentava me defender, mesmo sendo muito difícil por causa dos efeitos colaterais do remédio, porque me deixavam como se eu fosse um zumbi.

Ganhei alguns apelidos como câmera, slow-motion, entre outros. E todo mundo achava isso engraçado, mas eu ficava revoltado.

O tempo foi passando e a medicação foi reduzindo e eu melhorei, mas os apelidos continuaram. Eu tive outro surto em 2007 e comecei a tomar medicamento de novo. Eu enfrentei uma guerra pessoal, pois eu tive esse surto e não queria trancar a faculdade mais uma vez. Queria terminar. Então, eu enfrentei tudo sozinho e calado, e depois passei etapas para superar isso. Na verdade, ainda tento superar isso hoje em dia.

É muito difícil eu me manter um pouco quieto, muito mais internamente. É um caos, mas eu tento lidar com isso, apesar de muitas vezes passar despercebido pelas pessoas como uma pessoa de vida normal.

Carlos 05

Minha família me ajudou bastante, mas os amigos, poucos. Eu recebi visitas quando eu surtei. A minha mãe e meu pai me ajudaram muito. Os meus irmãos não se aproximavam muito, mas também porque não entendiam a situação. O meu irmão mais velho ainda tentava conversar comigo, mas eu não queria.

Já a minha família de fora olhava muito para a minha barriga e falava que eu podia ficar magrinho ou sarado, que era só eu não beber muito. E foi quando as pessoas começavam a falar sobre bebida. Eu bebia mesmo, mas de maneira esporádica. As pessoas achavam que eu era gordinho porque bebia, mas se largasse meus remédios eu voltaria ao normal, inclusive é outro bullying que até hoje eu sofro.

Carlos 04

A corrente me deixa preso ao passado e às coisas que eu queria mudar e até estava conseguindo com o tempo. Mas ao mesmo tempo que me deixa preso, ela me liga a situações ou a questões que me libertam. Por exemplo, eu estou tentando me libertar da doença e estou fazendo exercícios novamente. Estou tentando ter força de vontade para mudar, quebrar as correntes que me deixam preso. Em alguns casos, as correntes ligam, como elos. Como o meu novo médico que me ajuda bastante, algumas pessoas que eu também conheci nesse estado de doença, como o CAPS, ou novos amigos, de outras religiões. Eu sempre mantenho contato com todos eles e eu sei que se não fosse a doença, eu não teria tanto contato.

É difícil admitir. Isso porque quando eu tento lembrar, eu não consigo muito ter essa liberdade de dizer que eu tomei outro rumo, a minha vida mudou, e que hoje eu estou satisfeito. Eu tenho um passado que me persegue.

Eu gostaria de ter tido a opção de não ter ficado doente.

Antes disso, passei por um tempo em que eu construí a minha vida, eu mudei ela radicalmente. Acordava cedo, exercitava, tocava e estudava. Consegui o impossível, até porque o meu curso é conhecido como um curso que exige muito tempo dedicado e eu tinha um excesso de tempo. Foi um processo de construção até eu desabar por causa dessa doença.

Eu sinto muita falta do passado. Mas eu vejo que depois da doença eu comecei a fazer novas ligações de amizades na minha vida. Eu conheci o pessoal do coral, novas pessoas na faculdade… Demorei um pouco para concluir as etapas da vida, mas consegui novas conquistas, também.

Carlos 06

A minha mensagem para as pessoas que passam por situação como a minha é que não se estressem. É normal você não se levantar, buscar ajuda e não ter, procurar uma saída ou algo que liberte você dessa prisão. Mas tenha sempre alguém em quem você possa confiar, seja sua família, seus amigos, ou até mesmo em desconhecidos e também em relacionamentos afetivos.

Você pode lutar, cair, levantar e lutar novamente. Não faça isso por pessoas ou coisas que você queira, mas faça isso por você mesmo. Tente conquistar algo dentro de você que traga paz, amor e tranquilidade.

♬) Uma música que quebra o meu silêncio é: Brincar de Viver – Maria Bethânia.

Quando ela fala sobre ter a arte de sorrir cada vez que o mundo diz “não”. E isso me marca bastante. Todo mundo vai dizer não a você algum dia, mas quando você para para pensar, você vê que precisa continuar tendo essa força de vontade para sorrir. Essa arte de sorrir!

Anúncios

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s