Entrevista Magno Almeida

Magno Almeida, 27 anos.

Sou Professor de Literatura e Redação.


Magno 01

Eu sofri preconceito por conta da roupa que eu visto, da música que eu escuto, do tipo de leitura que eu costumo ler e recentemente, desde 2013, por conta do meu cabelo, principalmente.

Eu tenho um black desde 2013, então absolutamente todos os dias de lá para cá, as pessoas olham estranho, riem, apontam, então esse é um preconceito que eu vivencio quase todos os dias. Pela cor não passo nada, mas pelo cabelo e também pelas tatuagens e piercings.

Lidar com a situação do preconceito é muito relativo. Tem dias que eu estou realmente de bem com a vida e se alguém falar alguma coisa comigo, eu simplesmente olho para o lado e ignoro. Eu sigo. Mas tem dias que as coisas são muito agressivas e não há como deixar de lado.

Na maioria das vezes, eu sempre olho estranho para a pessoa também. Mas eu estou refletindo sobre isso, e pensando se isso também não seria um tipo de agressão da minha parte para com o outro, que talvez não tenha tido acesso aos estudos que eu tive e às informações que eu tenho. Não estou me colocando em um patamar maior, mas a gente sabe que estudo só é para quem busca por isso.

Magno 02

Duas situações bem específicas me marcaram muito. A primeira foi que eu estava no ponto de ônibus e uma negra de cabelo alisado olhou para mim, riu e apontou, falando com a amiga que tava do lado. Isso me marcou e ao mesmo tempo de deixou muito triste. Saber que eu, da mesma cor que ela, talvez até com a mesma estrutura capilar, estava passando por aquilo por ela estar se colocando em um patamar de superioridade pelo simples fato de que eu não alisava o cabelo como ela.

A segunda foi também por conta do cabelo, mas também por causa das tatuagens. Fui parado por policiais que me revistaram em absolutamente todas as partes.

Foi uma coisa bem agressiva e eles também meio que induziam as minhas respostas, perguntando coisas como: “Você não tem nada na bolsa?”, “Você é realmente um professor?”…

E isso foi de uma agressão quase que extrema e não consigo entender muito bem esse tipo de reação dos outros, por eu ser uma pessoa extremamente sensível, isso me toca de uma forma que me deixa um pouco inerte, mas isso me deixa um tempo refletindo sobre essa situação. Depois de um tempo, eu entro em um denominador comum para tentar saber por que isso ocorreu, por que o outro se acha superior para me colocar para baixo dessa forma, sendo que não existe diferença de mim para os outros, pelo menos não para mim.

Magno 05

Eu sou de família pobre e negra, família de salário mínimo, mas eu resolvi sair desse ciclo. Me formei, sou professor e estou até pensando em voltar para a carreira acadêmica. Estou até lançando o meu primeiro livro, mas tudo por conta própria. Eu observo essas pessoas ora com pena, ora com muita raiva, porque as coisas batem em mim por eu ser muito sensível. É complicado lidar com isso. Porém, isso tudo me fortalece.

É como diz Caio Fernando Abreu: “Depois de todas as tempestades e naufrágios, o que fica em mim é cada vez mais essencial e verdadeiro”. Então, eu tenho me fortalecido mais, mesmo que o outro xingue, olhe estranho, ria na minha cara por eu ser patético aos olhos dele…

Também me diferencio do outro, porque eu não quero ser igual em tudo, no modo de falar, de vestir, enfim. Eu sei que a agressão que eu sofro não é uma agressão que eu partilho para o outro.

A minha mãe não entende e reclama porque eu gasto todo o meu dinheiro com livro. Mas eu também entendo, porque ela veio do interior, não estudou tanto quanto poderia. Ela não entende muito bem o quanto isso me faz bem. Reclama porque eu choro com poesia, com cinema… Em relação a vários porquês das coisas que eu faço.

Eu não tenho muito o apoio da minha família. Já em relação aos amigos, é totalmente o inverso, porque os amigos são a família que a gente escolhe. Tenho apoio deles em relação a tudo: cabelo black, tatuagens, literatura, à querência de ter desistido da academia para tentar ser artista…

A gente sabe que artista precisa ralar bastante para sobreviver do seu trabalho artístico.

Magno 03

A literatura é a minha válvula de escape. Eu não sei o que eu sou, mas escrever me traz ainda mais dúvidas, só que pertinentes à reflexão, à vida.

O que eu sou é uma coisa estranha e interminável e a escrita me ajuda a me definir.

O livro que escrevi é quase autobiográfico, é uma relação minha com o mundo. Em relação ao meu corpo, aos meus olhos, às minhas leituras, o quanto a solidão me bate quando estou no meu quarto, o que eu escuto de madrugada, a vontade de estar aqui e não estar lá, enfim… Eu extravaso tudo isso por meio da literatura!

Ser vítima do preconceito, na verdade, muda a percepção da gente em relação ao mundo e às pessoas.

A pessoa que nem te conhece te agride, às vezes sem saber o porquê ou até mesmo só por ser diferente de você. A minha percepção muda a partir do momento que eu olho para o outro e me pergunto por que ele está fazendo aquilo. Eu acredito que a nossa compreensão muda nesse sentido de reflexão e também em tentar ser uma pessoa melhor, e não de repetir o comportamento agressivo do outro.

Magno 04

A literatura faz de mim uma pessoa melhor!

Eu trouxe dois livros, o primeiro de Clarice Lispector e o segundo de Hilda Hilst para me representar. São duas autoras às quais eu sou completamente apegado, tanto que eu tive que trazer os dois livros, não consegui trazer somente um. Elas têm livros que conseguem mudar a minha percepção de mundo, de vida, de indivíduo, de tudo.

O livro foi o responsável por eu ter saído do meu mundo que era tão pequeno, em relação a estudos e até mesmo em relação ao preconceito. Ele me ajuda a enxergar o mundo de uma forma mais bonita. A conseguir enxergar beleza nas coisas mais simples. Enxergar a vida de uma forma mais interessante, mais sensível.

Uma mensagem que eu posso deixar para as pessoas que passam por situações como a minha é que leiam mais, busquem mais, saiam desse círculo vicioso que talvez vocês vivam. Tentem ser ousados, tentem não seguir o que boa parte das pessoas acredita ser o certo. Tentem fugir desse esteriótipo, desse padrão. Quem disse que você tem que ser igual? Só depende de você, buscar fazer diferente. Enxerguem o mundo com mais sensibilidade, porque isso faz qualquer pessoa ser uma pessoa melhor, todos os dias.

♬) Uma música que quebra o meu silêncio é: Uns Versos – Adriana Calcanhotto

Me inquieta de uma forma que quebra o meu silêncio. Acredito que essa música faz isso.

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