Entrevista Kayman Lima

Kayman Lima, 23 anos.

Sou funcionário público.


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Sofri alguns tipos de preconceito. Quando mais novo, sempre sofri por causa do peso. Sempre fui gordinho, sempre estive acima do peso. Já na época da escola, 6ª ou 7ª série, eu entrei para um colégio considerado de elite e por ser moreno, ter o cabelo grande e cacheado eu ouvia piadas das pessoas que pensavam que eu era bolsista, filho da empregada.

Mais  velho, até no próprio trabalho o pessoal tirava muita onda por causa do meu cabelo, porque eu ainda usava grande.

Me chamavam de viado, de emo, de rosqueiro, sempre escuto esse tipo de piada ridícula que todo mundo faz.

E pela sexualidade também, né? Por mais que seja algo que eu acho que não deixo demonstrar muito, só com quem me sinto muito à vontade. Sempre tive esse problema de ser chamado de  viadinho, principalmente na escola, que é a pior fase.

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Teve uma situação que me marcou bastante durante essa época. Na 6ª série, teve uma vez que de tanto eu ouvir as pessoas falando essas coisas de mim, eu passei a desenvolver a reação de dar um tapa na cara de quem falasse alguma coisa ruim de mim. A minha mãe foi chamada na coordenação do colégio umas duas vezes porque eu agredi dois meninos que estudavam comigo e fizeram uma piada.

Uma vez eu saí mais cedo da aula, eu ia para o dentista com o meu avô, que é desembargador e é quem pagava a minha escola. Eu sempre ia de ônibus para o colégio e ninguém entendia isso porque todos iam de carro. Nunca gostei de aparentar o que nem tenho, até porque o dinheiro não é meu, é da minha família. Meu avô me ligou para me buscar no colégio mais cedo e eu pedi para ele só ir na hora da saída e me pegar no portão. Comecei a maquinar um plano para as pessoas pararem de me xingar, eu nunca fui convidado para nenhuma festa. Nesse dia, meu avô chegou na hora da saída, parou o carro dele e tinha um fusquinha atrás. Todo mundo achou que eu ia entrar no fusquinha e o carro do meu avô em 2003 era um Corolla. Quando eu abri a porta do carro, o pessoal ficou impressionando, achando que era o patrão que estava indo me buscar. No outro dia, por causa das histórias dos tapas, a coordenadora conversou com professores e alunos e foi quando a galera começou a me aceitar mais. Foi quando eu aprendi que aqui as pessoas gostam muito do que você demonstra ser, elas não estão muito interessadas em conhecer quem você é.

Eu nunca gostei de pessoas que gostam de ser o que não são.

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Eu já havia tentado fazer a cirurgia de redução de estômago duas vezes e tinha sido barrado pela psicóloga porque eu era muito novo e ela disse que eu não estava pronto para uma mudança muito grande na minha vida. Ano passado eu comecei a fazer de novo o pré-operatório e consegui a liberação.

Me operei há dois meses e me sinto bem melhor, me sinto mais à vontade para sair de casa e ir à praia. Meu pai é surfista e eu nunca me senti bem para tirar a roupa da praia. Hoje eu sinto mais vontade de fazer as coisas que eu me privava de fazer. E no trabalho também melhorou bastante, aprendi a conviver com as pessoas que trabalham comigo e a perceber quando a brincadeira é inofensiva ou quando tem a intenção de cutucar, de magoar. Agora os colegas dizem que eu estou bonito, que estou magro.

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Eu não tenho muito contato com o meu pai, que resolveu se afastar quando descobriu que eu sou homossexual. Foi uma coisa bem tensa, porque foi um vacilo meu, não que eu nunca tivesse planejado contar.

Na verdade, eu nunca contei para ninguém além da minha mãe, do meu pai e dos meus amigos. Agora eu estou falando e vai ser postado no Facebook e muita gente da minha família vai ver, e eu até acho que alguns sabem, mas nunca ouvirem de mim. Eu não tenho muito contato com o meu pai, mas quando eu decidi fazer a cirurgia, ele apareceu novamente e me deu apoio, sempre falava que dependia só de mim, dizia que eu ia mudar a minha vida inteira.

Meus amigos foram as pessoas em quem eu foquei porque eles sempre me ajudavam quando eu tentava comer alguma coisa fora do normal, tentando impedir. A resposta da galera que anda comigo foi o que fez eu me sentir mais seguro para fazer e o lado bom do que eu imagino que será a minha vida daqui para a frente, porque vai mudar.

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Ter sido vítima de preconceito mudou a minha compreensão a respeito do preconceito porque a gente só sabe o quanto é ruim sofrer preconceito quando já aconteceu com a gente.

A gente tem ideia de como é, mas quando é a nossa pele, a gente tem certeza. É muito mais intenso, o sofrimento é bem maior. Eu tive que viver a vida inteira com pessoas que zombavam com o meu peso. Até eu mesmo comecei a me sabotar, pensando que não deveria ir atrás de ninguém se eu mesmo não ficaria comigo. Eu não queria sair de casa porque sempre que eu estava na rua, me deparava com um olhar estranho, alguém em um carro que passa achando que é a melhor pessoa do mundo. Eu sempre tive noção de que as pessoas passavam por isso, mas quando eu era o alvo, eu senti na própria pele.

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Para as pessoas que passaram por situações como a minha eu diria que, nada na vida é permanente. Nem tudo o que é bom vai durar para sempre e nem tudo que é ruim durará para sempre também. Eu tive um período de depressão com uns 14 anos quando a minha avó separou do meu avô e eu não podia visitá-lo. Foi quando eu comecei a desenvolver problemas de ansiedade e comecei a tratar com medicação e também mexiam comigo por causa disso.

Coloquei na minha cabeça que não dependia de outras pessoas, dependia de mim. Nunca é permanente. Passou pela minha cabeça acabar com aquilo, mas eu nunca tive coragem. E o desespero também passa. Não se acomode com coisas ruins, tente melhorá-las.

Trouxe como um objeto que me define um CD e um livro, O Livro do Harry Potter foi a série que despertou meu amor pela literatura porque eu não gostava de ler os livros da escola e o CD é o que mais representa a minha fase mais intensa. Esse CD da Avril Lavigne me faz pensar em todas as coisas da minha vida.

♬) Uma música que quebra o meu silêncio é: Nightwish – Dead to the World.

A música fala que não é o monstro embaixo da cama, o homem na porta ao lado. Não é uma coisa psicológica, é uma coisa real. É a pessoa que convive com você no dia a dia que faz você se sentir menor. Ela também fala que nisso tudo é onde o poeta encontra a inspiração, o desejo de melhorar.

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