Entrevista Flavio Cansanção

Flávio Cansanção, 32 anos.

Sou fotógrafo, blogueiro e atual diretor administrativo da Pro-vida.


Flavio 1

Como fotógrafo, primeiramente, sofri preconceito porque minha família sempre teve esse conceito errado de quem quer trabalhar com fotografia. Eles dizem “que isso não é emprego de gente” e algumas pessoas até me perguntam qual é o meu emprego de verdade.

Trabalho também com Direitos Humanos, e o preconceito é geral. Você trabalha com uma classe que hoje em dia é uma grande maioria, que o pessoal insiste em chamar de minoria, mas não é, estamos em todos os lugares, os LGBT (lésbicas, gays, bissexuais, travestis e transexuais) e não existe mais essa de você parar para ficar pontuando, dizendo que uma pessoa é isso ou aquilo por causa disso. A família sempre diz palavras perjorativas por causa desse trabalho. Não só a família, como também a sociedade, mas sempre dá para quebrar isso.

Flavio 2

Existem algumas situações marcantes, mas em especial foi uma transexual que sofreu preconceito em uma academia feminina, e a gente acompanhou todo o processo. Ela está readequando-se sexualmente, era homem e está se tornando mulher. Ela já é toda feminina e até já trabalha com a gente na ONG. Ela foi se matricular na academia e sofreu preconceito, o homem que a atendeu disse que ela não era mulher, que ela era uma aberração, foi muito pesado.

Você trabalha com uma pessoa há anos, você a aceita como ela é, já existe toda essa transição, toda a identidade de gênero e vem um homem e fala uma loucura dessa. Quando se trabalha com Direitos Humanos você fica assustado, porque recebe uma carga pesada.

Outra história foi uma mãe que chegou para mim, que lia o meu blog, no qual eu também escrevo coisas sobre o Movimento LGBT. Ela entrou em contato comigo para que eu pudesse conversar com o filho dela e apresentar a ele o meio gay, porque eu ia muito para boates, eu ia muito para as festas, e eu achei isso tão interessante, porque ela não era bem mãe, ela era avó dele. Ele havia completado 18 anos e sempre tinha sido bastante retraído, e ela queria que eu apresentasse a ele as pessoas certas, as pessoas bacanas.

Ela leu o meu blog e achou interessante a minha linguagem e me disse que eu falava de uma maneira muito bacana, e teve coragem de fazer isso, apesar de ter sido um atrevimento muito grande. Fiquei muito surpreso, porque isso acaba se tornando um trabalho social. Outra situação foi uma garota com quem eu conversei e ela queria que a mãe dela se assumisse para a família, e foi muito divertido porque a mãe era muito fechada e a filha muito aberta. Ela aceitava a mãe numa boa, e a mãe tinha o problema com a autoaceitação. A gente conversou, aconselhou. Achei muito bacana isso de deixar a pessoa à vontade, porque é o mínimo que podemos fazer pelos seres humanos.

Flavio 3

Lidar com tudo isso sempre foi complicado. Primeiro, porque meus amigos são advogados, arquitetos, trabalham em profissões que são bem remuneradas enquanto eu desde sempre gostei muito de fotografia e todos sempre acharam que era hobby, brincadeira, mas eu acabei profissionalizando a coisa.

Todos acompanharam de perto, mas ainda existem alguns preconceitos de algumas pessoas que perguntam quando eu vou parar com essa modinha, quando eu vou procurar um emprego de gente normal. Ainda tem gente no mundo que chega para falar umas asneiras dessa, porque já tem 15 anos que eu trabalho com fotografia, me sustento com isso e tenho o maior orgulho de dizer que sou fotógrafo.

Já Direitos Humanos, não foi um choque tão grande porque eu já trabalhava com ONG e como eu sou voluntário, eu sempre expus isso tranquilamente, e por expor, acho que você se impõe para a sociedade, porque quando esconde demais existe muito questionamento, muita gente decepcionada, é muito problema. Quando você expõe, até as pessoas que você nem imagina vão chegar em você para conversar. O preconceito não foi tão grande, mas aconteceu também.

Flavio 5

O amor em si, como não existe uma explicação, é algo que acontece, existe pelo fato de ajudar as pessoas. De fazer as coisas, de ajudar a quem precisa, que foi algo que minha mãe sempre me ensinou muito.

Ajudar os idosos, ajudar pessoas que estão em hospitais com pessoas sofrendo, e para levar alegria você nem precisa ser médico, só fazer uma visita e passar um tempo com elas. Se você fica tanto tempo sem fazer nada, por que não usa esse tempo para ajudar alguém? Se você vai e passa um dia com eles, você não está se matando, você está ajudando. Esse amor foi uma cultura que adquiri desde a infância.

Ter sido vitima do preconceito mudou muito a minha forma de ver o mundo porque você é criado em uma redoma de vidro, como eu fui por minha família, que sempre me criou da melhor maneira possível, eu sempre tive tudo de uma maneira muito acessível. Mas por outro lado, quando você quer se libertar, toda essa dita facilidade, porque existe a cobrança, você fica um pouco louco.

A minha saída da bolha foi um pouco complicada, porque eu estava me entendendo como ser humano, como pessoa, e muita coisa que eu aprendi da vida eu descobri que não era bem daquele jeito. Eu tive uma base muito boa, porém, a família ensina muito a não me expor, não expor o emocional, as fraquezas, a não baixar a cabeça. Você acaba se podando de uma maneira que você acaba se tornando uma pessoa muito fria, e quando você sai disso, que você começa a trabalhar com pessoas, por exemplo, a fotografia ajudou a me abrir demais, a perder a timidez, porque eu era o “patinho feio” da família, e de repente eu me destaquei como pessoa, no trabalho, lidando com as pessoas. Isso, para mim,foi um bem gigantesco grande.

Foi um processo bastante incrível, foi uma descoberta que continua sendo uma descoberta. Até aprendendo a respeitar o próximo você acaba se tornando uma pessoa melhor.

O trabalho social acrescentou muita na minha vida porque você aprende a ser mais humano. Eu assumo abertamente que antes eu tinha o maior preconceito com os travestis e os transexuais. Antes, eu não entendia, e eu comecei a ter amizade com elas e a entender o processo, o sofrimento, o procedimento. Umas que fazem e desistem, já outras, se encontram. Aprendi a respeitar as que estão em transição e querem ficar assim.

É muito complicado tudo isso.

Eu conheci um casal transexual, do qual faziam parte um homem que virou mulher e uma mulher que virou homem e eles se encontraram e formaram um casal. A diversidade é tão ampla que você tem que compreender que é isso, que faz parte do mundo e que você deve respeitar o ser humano. Com gays, bissexuais e lésbicas também existe preconceito, mas não é com uma dimensão tão grande. Tenho muito carinho por elas, por eles, eu tenho muito respeito porque são seres humanos.

Você precisa olhar para o coração da pessoa. Foi isso que eu aprendi!

Flavio 4

Eu amo a minha câmera! É um parte do meu corpo. Eu trabalho há 15 anos com fotografia, o meu avô tinha uma câmera em casa que eu pegava emprestada e as vezes, eu saía para fotografar as coisas, eu fotografava tudo. Eu acho o máximo dar vida a uma foto e você transformar uma foto daquilo que você está olhando. Juntava o dinheiro do lanche para comprar filmes de 36 poses para poder tirar foto. Tenho histórias loucas e legais, porque você acaba dando muito valor ao que está fazendo.

Eu costumo sempre dizer que antes de julgar, antes de querer apontar os dedos, acusar os outros, achar que sabe das coisas, procure conversar um pouco com a pessoa, procure entender qual é o problema. De repente, há uma pessoa que sofreu muito ou até que cometeu crimes, ou é alguém muito bom só que não teve o acesso que você teve, acesso às mesmas opções que você, e que acabou sendo marginalizado. Isso pesa demais.

Nós somos caixas. E elas armazenam um pouco da nossa vivência. Se você não consegue entender o que tem lá dentro do seu próximo, você vai ser uma pessoa fria e até uma pessoa nojenta. Seja sensível ao próximo!

♬) Uma música que quebra o meu silêncio é: Marvin Gaye – Ain’t no Mountain high enough.

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