Entrevista Jerlan e Alexandre

Jerlan Pereira Batista, 27 anos.

Sou do setor administrativo e instrutor de Libras.

Alexandre da Silva Santos, 36 anos.

Sou funcionário do TRT/AL, no Almoxarifado.

Ambos são integrantes da AAPPE.


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(Jerlan Pereira)

Tudo começou quando eu estudava. Na escola, tinha alguns amigos que eu achava que não tinham educação, mas depois eu vi que era preconceito mesmo. Tratavam-me mal, e eu queria passar para eles um pouco da minha língua para ter o mínimo de comunicação com eles, e eles não queriam, vivam me zombando.

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(Alexandre da Silva)

Passei por uma situação muito difícil porque eu estudava, mas naquela época eu encontrei muitas barreiras. Não é como hoje, que tem intérprete. As pessoas não queriam ter contato comigo, queriam se afastar de mim, e eu não sabia como ia ter amigos. Em 2002 surgiu uma nova Lei das Libras, eu cresci e tive como me comunicar. Hoje eu vivo melhor.

Meu pai, dentro de casa mesmo, não tinha interesse por mim, em relação ao que diz respeito ao apoio da família. Eu via as pessoas casando e eu dentro de casa.


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Jerlan: Na escola, me forçavam muito a oralizar as coisas. Eu tinha que oralizar e escrever para aprender a assimilar as palavras e não conseguia, aí ficava de castigo. Eu tinha que escrever linha por linha, tinha que fazer leitura.

Alexandre: Na minha Igreja, que eu sou evangélico, a grande dificuldade que enfrentei foi a de não conseguir ler a Bíblia, e eu queria muito ler sobre Deus. Eu não conseguia interpretar a Bíblia.

Jerlan: Algumas pessoas acham que eu não sou surdo, porque veem que eu ando na rua, que eu faço tudo normalmente, e às vezes, eu digo para as pessoas que sou surdo e elas se espantam. Me veem perfeito, veem que eu sou formado em Biologia e agora fazendo outra faculdade, fazendo pós, as pessoas me veem como um referencial.

Alexandre: Quando eu vou dar um passeio no Shopping, eu me sinto bem porque as pessoas me veem com um algo a mais, me veem como um profissional, veem que eu sou novo… Vou na banca de revista, olho algumas coisas diferentes, vejo que lá tem pessoas mais inteligentes que eu, pessoas que conseguiram ainda mais que eu, e essa mistura é muito legal.

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Jerlan: A minha família sempre foi o meu alicerce, meus amigos também sempre me apoiaram. E a minha esposa também, porque hoje eu sou casado.

Alexandre: Minha família foi quem mais me ajudou e hoje eu não tenho mais algumas pessoas da minha família, porque eles vieram a falecer. Eu tenho amigos que me ajudam também.

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Jerlan: Eu sofria com o preconceito, mas eu nunca foquei na questão do preconceito, eu focava em mim, eu corria atrás. Hoje, eu me sinto totalmente bem por ter conquistado tudo o que eu conquistei até aqui.

Alexandre: Acho que em mim, mudou um pouco a minha consciência, o meu entendimento e a minha fé em Deus. Eu procuro ver em outras pessoas a diferença de cada uma delas.

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Jerlan: Touxe meu celular como um objeto que me define porque estou sempre com ele na mão, uso muito para me comunicar através do Whatsapp, do Facebook, nunca esqueço ele quando eu vou sair. Para um ouvinte é muito mais fácil, para mim não é tão fácil.

Alexandre: O celular e o computador são formas da qual eu consigo me comunicar melhor, eu converso com os meus amigos. É muito importante para se comunicar e conhecer pessoas.

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Uma mensagem que nós podemos deixar para todos que passam por situações como a nossa é:

Como nós passamos por tudo isso e tivemos força de vontade para superar, nós podemos dar conselhos, conversar, dar explicações. O que se devemos fazer é pensar positivo, adquirir experiências, porque isso é bom. Muitos nos veem como pai, se espelham em nós.


Sobre a AAPPE:

A Associação dos Amigos e Pais de Pessoas Especiais – AAPPE é uma organização da sociedade civil, sem fins lucrativos, de Utilidade Pública Federal, fundada em 28 de fevereiro de 1987. Em 1993, a AAPPE redirecionou seu foco de trabalho a partir da experiência pessoal de Iraê Cardoso, uma empreendedora social que, após a morte de seu irmão surdo, abraçou a causa dessa comunidade, percebendo a carência de políticas públicas voltadas às pessoas com deficiência auditiva e/ou surdez no Estado de Alagoas.

A Instituição tornou-se um centro de referência em surdez na região Nordeste, graças a um conjunto de ações voltadas à habilitação e reabilitação integral da pessoa com deficiência auditiva e/ou múltiplas deficiências.

Atuação:

  • Educação complementar para surdos em várias faixas etárias;
  • Ensino e interpretação de Língua Brasileira de Sinais – LIBRAS;
  • Atividades esportivas e culturais garantindo o convívio e a comunicação entre surdos e ouvintes;
  • Formação/capacitação de profissionais surdos e ouvintes para atuação na área da surdez;
  • Qualificação básica e específica de surdos, para o desempenho de atividades profissionais compatíveis com as demandas do mercado de trabalho;
  • Atendimento clínico nas áreas de pediatria, clínica geral, otorrinolaringologia, neuropediatria, terapia ocupacional, fonoaudiologia, psicologia e estimulação precoce.

Conheça mais: http://www.aappe.org.br

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5 comentários sobre “Entrevista Jerlan e Alexandre

  1. Linda entrevista!!!
    Estou amando conhecer o mundo sob esta nova ótica, nunca me imaginei tão feliz aprendendo a me comunicar novamente…
    Parece que voltamos a infância aprendendo as primeiras letras!!!!
    Parabéns aos profissionais, em especial ao professor Jerlan, pois está nos ensinando no CAS um novo significado para as velhas palavras!!!
    Abraços,
    Elisa Marta

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  2. Duas pessoas de ótimo caráter, as quais tenho o prazer de chamar de amigos e de ter acompanhado parte de suas histórias. Muito bom vê-los crescendo na vida e felizes.

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  3. Jerlan foi meu professor na AAPPE ele é um bom profissional e muito comprometido o Alexandre ainda não o conheço mais para fazer a entrevista com um mestre em Libras, já tem nossos Parabéns. A todos que participaram e tiveram a iniciativa nossos sinceros votos da mais e elevada estima, pois saber das verdades da vida e ter a coragem de expor só sendo BOM.

    Curtido por 1 pessoa

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