Entrevista Larissa Barros

Dia 29 de outubro, dia mundial da psoríase. 


Larissa Barros, 33 anos.

Sou agente de Turismo.

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Para falar de preconceito, preciso falar sobre como ele começou. Tenho psoríase, que é uma doença autoimune, desde os 17 anos. Para descobrir o que era isso, eu passei por 4 anos de tratamentos errados, até chegar ao diagnóstico correto. É uma doença que ataca a pele e as articulações, e o pior é o preconceito que sofro quando a minha pele está muito irritada, por conta das lesões. As pessoas se afastam, não lhe abraçam, e ninguém nem sabe o que é, mas já julgam pela aparência. É complicado.

Há estudos que analisam se há alguma alteração de cromossomos, tanto que quem é portador de psoríase é proibido de doar sangue, por não se saber qual é a real causa da doença. Se houver alteração no cromossomo, pode ser que seja transmissível. Até agora, não. É uma doença que não passa de uma pessoa para a outra, mas que qualquer pessoa pode ter em qualquer época da vida, inclusive tem bebê que já nasce com psoríase.

Ela é classificada como autoimune. É psicossomática, autossômica, autoimune e crônica. Qualquer estresse que você tenha, pior fica a psoríase. Aí as pessoas dizem para eu não me estressar, mas não é só o estresse de raiva nem de preocupação. A felicidade também estressa e isso também piora. É incrível como isso é contraditório!

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Um dia eu ia saindo do médico, estava com lesão no rosto, na testa, e uma senhora virou para mim e disse, bem baixinho: “Isso que você tem é câncer de pele, não é?”. E eu respondi do mesmo jeito, bem baixinho: “Não é da conta da senhora”. E saí, fui embora, porque já estava de saco cheio. E sei que as pessoas não entendem.

Foi difícil até para mim, entender a doença. Hoje é mais tranquilo, eu já sento e converso sobre ela, já explico o que é e que não pega. Explico e converso com as pessoas numa boa. Não aceitei a doença, porque acho que você não aceita nunca, mas eu aprendi a conviver com ela, e isso faz com que seja mais fácil conviver consigo mesmo.

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Quando eu descobri a doença, foi chocante. Ia para vários médicos e nenhum chegou a esse diagnóstico de psoríase. Primeiro, eu estava há 4 anos fazendo tratamentos diversos e nada resolvia. E indicaram um médico que só atendia particular. Fui com minha mãe e quando chegamos lá, assim que ele olhou para mim, ele disse que a doença que eu tenho não tem cura. E para mim, foi um choque. Comecei a chorar, não falei mais com o médico, saí do consultório e minha mãe ficou falando com ele. Ele explicou que não tinha cura, mas tinha tratamento. E pediu para que eu fosse com minha mãe a outro médico, já com esse diagnóstico.

Procurei outra médica, que me acompanhou durante muito tempo. Outro dia, através minha irmã, que trabalhava numa emissora de TV que tinha um quadro que falava sobre doenças todas as quintas-feiras. E coincidentemente, uma médica ia falar sobre psoríase. Minha irmã falou com ela e ela disse para minha irmã mandar eu ir direto no consultório dela, naquele mesmo dia. Eu fui, ela tirou um pedaço de uma lesão na barriga, fez uma biópsia para confirmar. Começamos com o tratamento, que primeiramente foi tópico. Você faz uso de todos os cremes possíveis e imagináveis. Eu tinha muito a psoríase no couro cabelo, então o meu cabelo caiu muito na época. Todo mundo dizia que eu tinha caspa. Não era caspa, o meu couro cabeludo estava soltando.

A psoríase é a regeneração acelerada das células. Se você levar um corte, aquele corte vai sarar em 23 dias. Minha pele se regenera a cada 48h. Na época foi muito complicado, eu tinha 17 anos, eu deixei de sair, passei a usar só roupa de manga comprida, os amigos não entendiam o que eu tinha.

Quem era mais próximo me acompanhou em todo o processo. Foi complicado. Chega uma hora que você se isola. Até que chegou uma hora que eu decidi não me incomodar mais com isso.

A minha médica foi fundamental, me encaminhou para a terapia, e eu não quis fazer, resolvi fazer do meu jeito, resolvi encarar. Li sobre a doença, falei com outras pessoas, principalmente no Orkut, que tinha até comunidade sobre isso. E aí você faz amizades, conversa com quem passou pelo mesmo que você, porque até então você acha que é a única pessoa que tem aquilo. Hoje é muito mais tranquilo até para conversar e explicar para as pessoas. Minha família sempre esteve muito ao meu lado, às vezes até sufocando, mas a gente entende que é por conta do cuidado. Quem tem psoríase corre o risco de desenvolver outras doenças, como eu desenvolvi a artrite, porque ela chegou a atacar minhas articulações. É fundamental ter alguém que apoie por perto.

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Ter sido vítima do preconceito mudou a minha forma de ver o mundo. Muda a forma como você quer encarar as pessoas. Acho que ser vítima de preconceito faz você querer fazer as pessoas pararem de fazer aquilo.

Subir no ônibus e a pessoa querer se afastar quando o seu braço vai tocar nela… É muito chocante. Você quer o tempo todo fazer com que aquilo pare. Eu já cheguei a conversar com a pessoa e dizer que ela não ia pegar. Antes eu evitava fazer isso.

Falar de preconceito comigo emociona demais. Você tem amigos que lhe defendem. Já passei por uma situação em que estava com uma amiga e um rapaz perguntou se o que eu tinha no braço era um sinal, e eu disse que não era um sinal, a minha amiga não sabia o que eu tinha e já disse que não pegava. Ele ficou sem entender e eu disse para ela ficar calma, porque ele estava só conversando.

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É uma situação muito difícil porque são vários tipos de preconceito. A primeira coisa que você pensa é que a pessoa está se afastando porque pensa que vai pegar, mas ela não vai pegar.

Você chega a desejar que a pessoa tenha só para saber como é. É uma doença que muita gente tem e pouco se conhece a respeito. O médico responsável pelo tratamento da doença não é um dermatologista, é um reumatologista, porque o remédio que age na psoríase é reumatológico. Eu tomo uma injeção por semana, o governo paga o remédio, que custa 8 mil reais, mas eu só posso pegar se esse médico prescrever. O meio médico ainda precisa mudar nessas questões. É ótimo ter um reumatologista e uma dermatologista me acompanhando, porque preciso muito, até por causa da artrite.

Tem uma hora que a gente se desespera, que você acha que vai morrer. Você não pode morrer por causa dela, mas pode morrer por algo que ela desencadeie. Você não pode ter nenhuma baixa na imunidade porque ela pode piorar. É muita loucura, tem que tomar cuidado o tempo todo. Quando você está comendo e alguém chega para perguntar se não vai piorar a doença, eu penso que se fosse piorar, não estaria comendo.

É muito ruim ser portador de uma doença que quase ninguém conhece. Eu tento explicar as pessoas. Aqui em Maceió não temos uma associação que dê suporte, mas em outros estados do Brasil existem. A psoríase é uma doença que incapacita as pessoas, porque o psicológico afeta muito. Conheço gente que entrou em depressão profunda por causa dela, porque não quer sair, não quer falar…

Hoje eu não me importo mais, mas já me importei muito.

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Um objeto que me define melhor é meu batom vermelho, porque para usá-lo, precisa ser muito ousada. Você sabe que vai chamar atenção. Foi uma das formas que encontrei para chamar atenção. A questão da vaidade também. Para usar um batom vermelho, você precisa ter muito cuidado. É ousadia, cuidado.

O meu recado para as pessoas que passam por situações como a minha é que tentem não se importar, não se deixar abater pelo preconceito. Isso existe, a gente tenta mudar, hoje até mais do que antigamente, a gente tenta fazer isso. É não se importar com o que os outros pensam é o mais importante porque você não vai se afetar. É você se aceitar da forma que você é e com o que você tem. Tudo fica muito mais fácil depois que você se aceita, ainda que exista o preconceito.

♬) Uma música que quebra o meu silêncio é: Paciência – Lenine

Fico pensando quando escuto “A gente espera do mundo e o mundo espera de nós um pouco mais de paciência” que nós queremos tudo tão imediato e as coisas só acontecem no tempo certo, não adianta você querer passar por cima e atropelar. Pra se aceitar como você é diante de uma situação difícil você precisa de tempo.

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3 comentários sobre “Entrevista Larissa Barros

  1. Larissa… vc é Lins demais… te admiro muito… principalmente pela sua coragem e alegria de encarar o mundo. Muita gente que te conhece e te ve com esse sorrisão nem imagina o seu sofrimento por ter que passar por esse tipo de preconceito. Você é um exemplo… parabéns por ser quem você é, .. sempre autentica e pela matéria maravilhosa que tenho certeza que vai ajudar muita gente com o mesmo problema que você.. super beijo!!!

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  2. Eu descobrir que tenho Psoríase faz 1 ano, tiver uma melhorar de 80% com o chá da casca da cebola, e não deixo de tomar complexo B.obs o chá da casca da cebola e pra passar no corpo depois que tomar banho com sabão neutro e usar muito hidratante de germe de trigo

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  3. Conheço a Larissa há muitos anos , a sua alegria de viver , o seu carisma , o seu sorriso é único e eu me coloco em seu lugar e acredito o quanto é ruim vc viver em um mundo cheio de preconceitos , antes de tudo ela é um ser humano e merece o devido respeito enquanto ser humano , por isso deixo aqui o meu carinho e apoio essa causa , tambem tenho outra amiga que tem a psoríase , ela é uma adolescente e se chama Larissa tambem , uma menina meiga , linda , amorosa e por incrível que pareça também adora um batom vermelho kkk Lara , seja feliz , curta a sua vida e nunca deixe esse sorriso desaparecer do seu rosto … BJSSSSSSSSSSSSSSS QUE DEUS TE ABENÇOE IMENSAMENTE

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