Desabafo | Joana Lins

Joana Lins, 21 anos.

Sou alagoana de alma e coração, nascida no interior de Estado e apaixonada por tecnologia.

desabafo


Fui criada da forma mais tradicional possível, meus pais são casados há 36 anos, minha família é completamente católica, e, desde criança aprendi valores que agradeço até hoje aos meus pais. Sempre fui muito magra, e, ao contrário do que se parece ou do que muitos pensam, não só os gordinhos sofrem preconceito. Sempre o driblei de forma muito simples, faziam piada: eu ria, tiravam brincadeiras: eu brincava. Não que aquilo não me machucasse, eu simplesmente não me importava.

Chegando a adolescência isso começou a me incomodar mais. Eu não fazia parte do que todos os meninos que conviviam comigo achava bonito. Eu não tinha a bunda enorme ou coxas grandes como as “gatas” da época tinham, mas uma vez, o preconceito de ninguém me afetou. Me incomodou, mas não fui afetada! Eu sabia das minhas qualidades.

Aos 17 anos, decidi ingressar no mundo da tecnologia e comecei a cursar Sistemas de Informação. Mais uma vez, “dei de cara” com o preconceito ao ouvir muitos dizerem que eu era homossexual por minha escolha de profissão.

E, mais uma vez o preconceito não me incomodou, afinal de contas se eu fosse gay, não era da conta de ninguém! Mas, quando eu menos esperei, tive acesso direto ao maior motivo de preconceito: o mercado do sexo.

Quando completei 18 anos, resolvi, junto com alguns amigos da faculdade abrir uma empresa de desenvolvimento de softwares. Nunca gostei muito de desenvolver, mas sempre gostei muito de vender meus produtos e adquiri uma habilidade incrível para falar em público, visto que fiz 8 anos de teatro amador.

Fizemos alguns trabalhos, sites, sistemas, até que, por volta de maio/junho de 2014 tivemos a oportunidade de participar do nosso primeiro evento como startup e precisávamos de um aplicativo inovador para ter chance de ganhar no concurso. Conversando para decidir qual segmento seguir, surgiu o Lugar Ideal, um localizador de motéis e de sexshops. Começamos a trabalhar, desenvolvemos o mínimo produto viável e finalmente lançamos o aplicativo.

Mas agora imagine uma mulher, nova, alagoana, se formando em sistemas de informação, falando sobre sexo!

De repente começou a parecer, para mim, que sexo era a coisa mais errada do mundo, que ninguém fazia sexo, sim, porque não é normal que fosse tão estranho assim falar sobre sexo… E foi ai, que comecei a perceber o preconceito que me incomodou, que me chateou, que me fez chorar e pensar em desistir milhões de vezes: o preconceito pelo meu trabalho.

Eu pensei em desistir, pensei em trocar de área, mas eu acreditava e ainda acredito na ideia. O pior de tudo é que, acima de tudo, o preconceito vinha de lugares que eu nem imaginava: de amigos!

Já ouvi, milhões de vezes, de pessoas que são importantes para mim que eu trabalho com putaria. Já ouvi de homens cantadas como: “Testa seu app comigo”, “Você só pode gostar muito de sexo, né?”, “Já foi pra todos os motéis de Maceió?”, “Nossa, que safadinha”, “Menina, na tua idade eu tava brincando”, “Eu nunca fui a um motel, mas com você eu com certeza iria…”

Já vi investidores em startup rindo pensando que eu estava brincando, já vi pessoas dizendo que meu trabalho não era sério. E, mais uma vez, tentei driblar o preconceito com minha alegria, mas será que é justo eu chorar por um conceito incoerente, e, diga-se de passagem estúpido, enquanto outros riem? Será que só eu trabalho com o mercado do sexo? Já me peguei, milhões de vezes, pensando no que sofrem as prostitutas, afinal de contas se o preconceito existe pra mim, quem dirá pra elas… E o pior, trabalhava comigo 3 homens, e nenhum deles, NENHUM DELES, sofreu por qualquer tipo que seja de preconceito, recebeu uma piadinha que seja, ou recebeu cantadas…

Hoje tenho 21 anos e continuo trabalhando com o Lugar Ideal. Meu orgulho pelo projeto continua FIRME E FORTE, minha força, a cada dia, cresce! Minha vontade de colocar o app “pra frente” mais ainda! Mas não desisto de lutar para esse situação mudar. Porque se eu quero falar sobre sexo, eu posso.

Se eu quero falar sobre amor, eu posso. E se eu quero ser nova, alagoana, nordestina, mulher, analista de sistemas e ter um aplicativo para o mercado do sexo, EU POSSO TAMBÉM!

Obrigada por me dar espaço para expressar o que penso! O Quebre o seu silêncio é DEMAIS!

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4 comentários sobre “Desabafo | Joana Lins

  1. Fui professor da Joana Lins durante seu curso de Sistema de Informação, posso garantir que sempre foi uma aluna dedicada e esforçada. Apesar de eu ser o professor de programação, a qual ela realmente não curtia 😛 Antes disso, desde os meus 15 anos vivo a área de informática/computação em tempo integral. Passei pelo técnico, superior e pós-graduação. Fiz parte da ENEC – Executiva Nacional dos Estudantes de Computação – e organizei eventos em quase todas as regiões do Brasil. Posso dizer sim que conheci muita gente da área e pude perceber, SEMPRE, que o preconceito contra mulheres na computação é velado. Nunca curti e sempre neguei o bordão: “Há, você já é brother! Já faz parte do grupo dos caras!” NÃO! Você é uma mulher, merece respeito e admiração. Admiração porque todas as mulheres que permaneceram em computação, sempre se deram bem. Super dedicadas e esforçadas. Posso citar várias, como: Rosely Nakaraha (Mestra e Programadora, tirando férias em Dublin), Rosa Lucena (Mestranda da UFPE e passa em concurso por hobby), Renata Nobre (Project Manager at ThoughtWorks), Larissa Lira (Project Manager at Tribunal de Justiça do MT), Renata Freitas (Programadora Sênior), Lorena Maia (Mestra, Programadora Sênior e consultora pessoal de problemas em algoritmos), Cristina Tenorio (Professora Mestra da UFAL e parceira de concursos), Fabiane Queiroz (Professora Mestra da UFAL), Natalia Julieta (Programadora e parceira de organização de vááários eventos em Alagoas) e *muitas* outras. Felizmente a sociedade de computação entende essa importância e promove vários programas de incentivo a adesão das mulheres a área de computação. Enfim, sou fã de todas vocês! =)

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