Entrevista Lívia Araújo

Lívia Araújo Nobre, 37 anos.

Sou gestora em Recursos Humanos.


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Falar de preconceito é falar sobre a endometriose. É muito triste, porque ela vem de uma classe que deveria ajudar, que são os médicos. As primeiras demonstrações de preconceito que a portadora de endometriose sofre acontece nos hospitais, nas urgências e emergências, que são os lugares que deveriam nos dar apoio, porque eles não acreditam nas dores que sentimos, nem que os sangramentos que algumas portadoras têm são, de fato, graves.

Até o momento em que verificam que não é apenas um sangramento, e sim, uma hemorragia. Algumas portadoras passam por momentos de preconceito com a família, com os amigos. As portadoras sentem muita dor, elas sangram, mas as pessoas não acreditam que essa dor  chega a ser tão forte que impede de viver bem, de trabalhar, de estudar, de tudo.

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Depois de 10 anos de vários tratamentos, de possibilidades diferentes de diagnósticos, como hemofilia, leucemia, anemia falciforme… Durante os 10 anos eu fui tratada com possibilidades e no final das contas, fui paciente de anemia crônica. A minha vida era tomar remédios para esse diagnóstico.

Minha primeira hemorragia aconteceu em 2006, e de fevereiro até novembro daquele ano, eu fiquei sangrando diariamente. A minha vida era do hospital para casa e de casa para o hospital. Esses 9 meses foram marcantes em minha vida, pois eu lutava contra algo que eu não sabia o que era. Até que no final de novembro, um determinado médico resolveu me avaliar em uma das idas à emergência e ele deu o diagnóstico possível de endometriose. Então aquele dia, para mim, foi marcante, porque eu fiquei super feliz por ter a possibilidade de saber o que eu tinha e sair daquela situação horrível. Eu queria mesmo saber o que eu tinha. Só sentia dor, só sangrava, estava totalmente isolada de todos, eu não saía. Esses 9 meses foram os piores dias da minha vida, dias que não consigo esquecer.

Liv 04

Vejo tantos relatos de portadoras que não têm apoio algum. Hoje estou aqui porque tive apoio da minha família e dos meus amigos. Sem eles, eu não teria superado isso de jeito nenhum. Porque não é fácil, é muito difícil.

A minha família é a minha base. E meus amigos sempre acreditaram em mim, minha família também. O que eles queriam, assim como eu, era achar o porquê daquele sofrimento. E os 9 meses que passei sofrendo até encontrar esse diagnóstico, eles sofreram comigo. Nunca deixaram a peteca cair, muito pelo contrário, quando eu quis me entregar, eles disseram que eu não podia fazer aquilo, que eles estavam lá e que conseguiríamos descobrir. É muito importante ter a família e os amigos por perto.

Há um mês eu passei por isso de novo. Hoje, já sabendo o que eu tenho, e para onde eu vou, eu levo a bolsa cheia de exames, com os laudos de que sou portadora de endometriose. Mês passado eu precisei utilizar a urgência do hospital que eu sempre vou e quando cheguei lá, em um quadro de hemorragia e muita dor, a atendente disse que eu tinha que esperar, que eu tinha que fazer o cadastro. Meu irmão já estava super nervoso porque estava vendo o quanto eu já estava sofrendo, e que eu só vou pro hospital quando está insuportável.

Meu irmão gritava, pedindo para me atenderem, dizendo que eu estava sangrando, que eu estava com dor. A atendente dizia que eu tinha que esperar, meu irmão ficou argumentando e perguntando se eles iam deixar eu sangrar até morrer. Foi quando eu disse que não sabia se seria preciso sangrar até morrer, mas que já estava tudo sujo de sangue. Foi quando ela percebeu a gravidade da coisa, e uma pessoa veio perguntar o que estava acontecendo e meu irmão justificou.

Eu só entrei porque eu tive que chegar a um nível de sangrar e fazer uma bagaceira, para alguém ver que eu estava passando por aquilo. São situações que portadoras de endometriose têm que enfrentar constantemente em suas vidas.

O sangramento é visível, imaginem a dor, que só quem sente só eu. Até que alguém acredite que eu estou sentindo dor, a dor já terá aumentado muito. Com plano de saúde ou SUS, sempre será da mesma forma. Eu tenho plano e ainda passo por isso, imaginem quem depende do SUS.

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Ter sido vítima do preconceito mudou a minha compreensão sobre tudo, com certeza. Eu digo que tem uma Lívia antes da endometriose e uma depois dela. Sempre fui uma pessoa com muitos pudores, eu me considerava uma pessoa sem preconceitos. Depois que passei por tudo isso, com coisas relacionadas à saúde, as outras coisas que eu achava simples e que eu tinha preconceito forte, comecei a fazer uma autoanálise.

Hoje me considero uma outra pessoa, porque nessa autoanálise eu me descobri uma pessoa muito preconceituosa. Agora tenho aquela filosofia de que “o que eu não quero para mim, eu não dou para os outros” e aprendi isso com a dor. Eu tive que passar por isso.

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Um “objeto” que me representa é minha mãozinha, cheia de tratamentos. São 9 anos desde a descoberta. Vou para a 3ª cirurgia e ainda não consegui me livrar das medicações, e isso é o que me representa hoje, os remédios, que ainda me dão uma qualidade de vida. Por isso eu resolvi representar essa causa com a mão cheia de comprimidos. A portadora de endometriose não tem remédios específicos, apenas paliativos.

Para quem passa pelo que eu estou passando, digo que continuem lutando. A partir de um momento que se tem um diagnóstico de qualquer doença que seja, você precisa abraçar esse diagnóstico e lutar contra essa doença e ter uma qualidade de vida. Você não pode se entregar.

E às pessoas que são preconceituosas com qualquer tipo de patologia ou com qualquer outra coisa, eu digo que espero que elas consigam ter amor. Primeiro, ter amor-próprio, depois aprender a amar os outros, porque a mudança que o mundo precisa é que, de fato, os seres humanos se amem.

O que falta neste mundo é amor. A partir do momento em que as pessoas se sentirem amadas, elas vão transmitir amor. O que mudará a humanidade é o amor, porque sem ele não somos nada, não somos ninguém.

♬) Uma música que quebra o meu silêncio é: Neguinho da Beija-Flor – Negra Ângela

Essa música não tem nenhuma mensagem de esperança, mas faz eu lembrar muito do meu pai, que cantava comigo, foi muito presente em minha vida e que não tenho mais comigo. É uma música que eu escuto quando estou em momentos de dificuldade ou quando estou muito feliz. Essa música me faz levitar, me faz sair de mim.

saibamais

Sobre a Endometriose:

Endometriose, uma doença que atinge 10% das brasileiras em idade reprodutiva. São 6 milhões de brasileiras que o período menstrual é um verdadeiro tormento. De acordo com a Associação Brasileira de Endometriose, entre 10% a 15% das mulheres em idade reprodutiva (13 a 45 anos) podem desenvolvê-la e 30% tem chances de ficarem estéreis. Elas sentem dores horríveis, e muitas vezes as pessoas ao redor não entendem. Acham que é exagero, ou que um simples analgésico resolve.

A doença é caracterizada pela presença do endométrio – tecido que reveste o interior do útero – fora da cavidade uterina, ou seja, em outros órgãos da pelve: trompas, ovários, intestinos e bexiga. Todos os meses, o endométrio fica mais espesso para que um óvulo fecundado possa se implantar nele. Quando não há gravidez, esse endométrio que aumentou descama e é expelido na menstruação. Em alguns casos, um pouco desse sangue migra no sentido oposto e cai nos ovários ou na cavidade abdominal, causando a lesão endometriótica. As causas desse comportamento ainda são desconhecidas, mas sabe-se que há um risco maior de desenvolver endometriose se a mãe ou irmã da paciente sofrem com a doença.

É importante destacar que a doença acomete mulheres a partir da primeira menstruação e pode se estender até a última. Geralmente, o diagnóstico acontece quando a paciente está na faixa dos 30 anos.

Sintomas

A endometriose pode ser assintomática. Quando os sintomas aparecem, merecem destaque:

  • Dismenorreia – cólica menstrual que, com a evolução da doença, aumenta de intensidade e pode incapacitar as mulheres de exercerem suas atividades habituais;
  • Dispareunia – dor durante as relações sexuais;
  • Dor e sangramento intestinais e urinários durante a menstruação;
  • Infertilidade.

Diagnóstico

Diante da suspeita de endometriose, o exame ginecológico clínico é o primeiro passo para o diagnóstico, que pode ser confirmado pelos seguintes exames laboratoriais e de imagem: visualização das lesões por laparoscopia, ultra-som endovaginal, ressonância magnética e um exame de sangue chamado marcador tumoral CA-125, que se altera nos casos mais avançados da doença. O diagnóstico de certeza, porém, depende da realização da biópsia.

Tratamento

A endometriose é uma doença crônica que regride espontaneamente com a menopausa, em razão da queda na produção dos hormônios femininos.

Mulheres mais jovens podem valer-se de medicamentos que suspendem a menstruação: a pílula anticoncepcional tomada sem intervalos e os análogos do GnRH. O inconveniente é que estes últimos podem provocar efeitos colaterais adversos.

Lesões maiores de endometriose, em geral, devem ser retiradas cirurgicamente. Quando a mulher já teve os filhos que desejava, a remoção dos ovários e do útero pode ser uma alternativa de tratamento.

Recomendações

  • Não imagine que a cólica menstrual é um sintoma natural na vida da mulher. Procure o ginecologista e descreva o que sente para ele orientar o tratamento;
  • Faça os exames necessários para o diagnóstico da endometriose, uma doença crônica que acomete mulheres na fase reprodutiva e interfere na qualidade de vida;
  • Inicie o tratamento adequado ao seu caso tão logo tenha sido feito o diagnóstico da doença;
  • Saiba que a endometriose está entre as causas possíveis da dificuldade para engravidar, mas a fertilidade pode ser restabelecida com tratamento adequado.

Fonte: Gineco e Drauzio Varella

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3 comentários sobre “Entrevista Lívia Araújo

  1. Excelente esclarecimento sobre a doença e maravilhoso depoimento da guerreira Lívia Araujo.
    Garota de muita coragem e muito amada por todos, inclusive por mim.
    Deus a abençoe e supra todas as suas necessidades.

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  2. Olá Pessoal!

    Mesmo que a palavra “obrigada” signifique tanto, não expressará por inteiro o quanto o gesto atencioso e delicado desse Projeto foi importante para mim e para todas as portadoras de Endometriose desse mundão.

    PROJETO Quebre o silêncio, me fazendo chorar de felicidade, pois nunca interpretaram tão bem a minha dOr!

    Obrigada pelo apoio e divulgação dessa patologia (Endometriose) que atinge tantas mulheres nesse mundão de meu Deus!!! Informação é tudO!!!

    Quebre o Silêncio, dando vOz a quem precisa!!! MUITO OBRIGADA!!!

    Um super beijo Gabriella Azevedo, e um forte abraço em toda equipe do “Projeto Quebre o Silêncio”, que nos tratou com muito profissionalismo e carinho.

    #quebreoseusilencio
    #QuebreOSilencio
    #EndoAlagoas
    #EndometrioseAlagoas
    #EndometrioseMulherAlagoas

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