Entrevista Luiza Cavalcante

Luiza Rosiete Gondin Cavalcante, 28 anos.

Sou professora e cantora.


Luiza 01

Não sei dar a definição exata do tipo de preconceito que eu passei, mas creio que seria o que chamamos de bullying hoje.

Tudo começou na escola, porque tenho dificuldade de locomoção. Ela era pior. Hoje tenho autonomia de ir e vir, hoje eu ando com bengala, vou devagar… Era muito pior, porque eu tinha que pegar na parede e eu estava em processo de fazer cirurgia.

Eu sofria muito, passava por muitas situações de constrangimento, ouvia muitas palavras feias, já jogaram até areia nos meus olhos.

Pegavam meus brinquedos na minha bolsa e colocavam na prateleira mais alta, para eu ter que me arrastar e ir buscar. Coisas assim.

Luiza 02

Uma situação marcante pra mim foi quando uma pessoa estava me dando uma ajuda, em dupla, e ela passou na minha cara que se ela não estivesse me ajudando, eu não teria chegado lá. Disse que eu não daria conta sozinha. Para mim, fora as coisas da infância, o apontar de dedos. Foi o que mais me marcou.

Durante todo o tempo minha família sempre me apoiou em tudo. Minha mãe principalmente, porque as mães sempre são superprotetoras, sempre colocou a asa por cima, sempre foi leoa. Minhas irmãs tratam com tanta normalidade que esquecem. Meus amigos também. Sempre recebi apoio!

Luiza 04

Ter passado por situações como essas mudou muito a minha forma de ver o mundo. Só se você estiver fechado demais no seu próprio sofrimento ou se não quiser enxergar as coisas é que você não consegue mudar com isso. Mas se você você aprende a enxergar a situação, é inevitável.

Nada é o que parece ser. Tudo tem um fundo por trás. Lógico que tem gente que você olha e o santo não bate, mas no geral, a gente passa a dar valor às coisas pequenas, percebe o quanto elas são importantes.

Sabe, tem dois livros que amo muito. A Tempestade, de Shakespeare, foi um livro que li quando nem pensava em fazer Letras. Li, gostei muito. Assisti um filme e procurei o livro. E Senhora, de José de Alencar, porque ele é sensacional. Meu TCC e minha tese de mestrado foram sobre Senhora, minha tese de doutorado também será. É um livro que carrego comigo. Foi um texto que ele passou por mim em todas as fases da minha vida, todas as inseguranças e os medos.

Luiza 03

As pulseirinhas que eu sempre estou com elas também me definem muito. Foi o meu presente para mim mesma enquanto eu estava solteira. Depois, meu marido chegou em minha vida e disse para eu criar uma pulseira de casada, então agora também tenho os meus anéis! O da graduação de Letras, o da aliança que fiz com Deus e o do mestrado. Deus é senhor do meu passado e do meu futuro. Ele é a base para tudo. E tem minhas alianças com meu marido, claro.

Luiza 05

Uma mensagem que eu posso deixar pra todo mundo é que é preciso ter foco.

Você tem que ficar surdo e cego para o que fazem e dizem com você em relação a isso, porque você precisa continuar.

Lógico que as situações ficam inconscientemente, porque elas podem acabar voltando. Elas voltam para mim. Ainda tenho muitos medos e todos são reflexos da fragilidade que eu desenvolvi diante dos preconceitos.

É como meu pai diz: “Quando você aprende a cavalgar, é você que monta no cavalo, não é o cavalo que monta em você”. Você não precisa ser igual a ninguém.

♬) Uma música que quebra o meu silêncio é:  Estudo Op. 10, nº. 3 – “Tristesse” (Tristeza) – Chopin

Por ter essa relação de olhar devagar para as coisas e parar, às vezes observar o que há nas entrelinhas, no que as pessoas não estão vendo, aconteceu também com essa música.

Eu ainda não andava, estava no processo de começar, com 4 ou 5 anos. Estava em um canto de parede brincando de boneca, minha mãe deixava a tv ligada, eu deixei na TV Cultura. Eu estava de costas para a televisão, só escutando. Passou uma orquestra com o arranjo dessa música, igual em Riacho Doce, na abertura. E eu chorava, chorava. Eu tive uma catarse naquela hora. Ela me define. Sou eu, em forma de partitura, todos os meus problemas, tudo. Quando escuto, consigo me acalmar e desacelerar.

 

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3 comentários sobre “Entrevista Luiza Cavalcante

  1. Essa é minha sobrinha, uma mulher que aprendi a admirar, um exemplo de amor e superação. Não foi difícil prever toda sua vitória, porque toda estrela está destinada a brilhar. Luiza é um ser iluminado por Deus, a amo incondicionalmente.

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  2. Essa menina mulher é a pessoa mais linda que conheci.Simples, culta e escreve poeticamente todas as dificuldades e sutilezas do mundo e da vida.Romântica, alegre com seu sorriso firme e aberto que cala nossa alma e coração.Conseguiu galgar o que muitos sonham e não conseguem.É bonita de alma e com sua silueta de Condessa nos deixa sempre emocionados quando canta e com certeza encanta.fico feliz em vê-la realizada como mulher.Parabéns minha linda Luiza.

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