Desabafo | Sônia André

Sónia André.

Educadora Musical,  Pós- Graduada em Ensino da Arte, Mestra em Educação e Atriz. 


 

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Em todo o lugar, sou estrangeira, menos na minha casa (Música da Elizah Rodrigues). Em Moçambique SEI QUE SOU NEGRA.

No Brasil SINTO QUE SOU NEGRA E ESTRANGEIRA.

Com esta frase saúdo a todos vocês presentes, estrangeiros ou não, mulheres negras, militantes dos movimentos negros e os que lutam em manter vivas as raízes identitárias do nosso BERÇO DA HUMANIDADE! Saúdo igualmente ao Hilton Cobra, que tive a oportunidade de conhecer durante a comemoração dos 130 anos da abolição da escravatura, em Fortaleza-CE, onde como conferencista apresentei o tema “Relações históricas entre África/Brasil”.

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Sou Sónia André, moçambicana, professora, Educadora musical, atriz. Estou no Brasil desde 2007. Em 2009 fui a primeira estudante africana/moçambicana a ser homenageada no Brasil, pela ONG Maria Mariá, com o tema MOYUBÁ YEYE (lígua yorubá que significa: eu saúdo as mães). A homenagem foi alusiva ao dia das mães, onde me juntei a outras sete mulheres brasileiras, em reconhecimento das suas lutas. Em 2013 foi feito um filme sobre mim intitulado Mwany (que significa terra no seu sentido mais amplo), muito elogiado e vencedor de vários prêmios em festivais de cinema.

Quando cheguei aqui, em 2007, minha filha tinha seis meses de idade, atualmente tem 8 anos.

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No começo da minha estadia no Brasil, levava minha filha para a faculdade, por vários motivos dolorosos que não conseguirei explanar neste papel. Desde que cheguei, com muito orgulho, tenho participado na difusão do continente africano (continente que conheço, que me viu nascer e crescer e não o que a mídia passa) em escolas, universidades, comunidade das capitais, interiores e quilombolas do nordeste, através de palestras, conferências, workshops.

Desde que coloquei os pés na terra do samba e do futebol, várias foram as perguntas, tais como: quantos dias de ônibus para chagar ao Brasil? Você veio de trem? Vocês têm elefantes nos vossos quintais? Nossa! Vocês têm prédios? Podemos adotar sua filha? Assim você não se preocupa com alimentação e escola dela porque vocês passam mal no vosso país!

Essas perguntas e afirmações se associam às variadas falas dos meios de comunicação como é o caso de um pediatra, sempre convidado para comentar sobre os cuidados que as mães devem ter com as crianças, sobretudo na alimentação, pela TV Gazeta de Alagoas. O pediatra sempre na sua ignorância convicta disse […] só crianças da África é que morrem de fome (e sempre generalizando como se África fosse um país)!

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A forma com a qual alguns brasileiros se referem aos estrangeiros, em particular africanos, de forma clara, autentica o que Kabengele Munanga chama de “engenharia perfeita quando o assunto é Racismo à Brasileira”. E o fato, por exemplo, de não se saber que Argélia, Egito, dentre outros países da África branca, fazem parte do mesmo continente (Mãe África) e dos povos que foram escravizados, deixa claro a tamanha pobreza mental de alguns brasileiros. Isso me deixa em parte tranquila quando se dirigem a mim, pois vejo que existem coisas mal resolvidas, assim como independências mal adquiridas, demostrado claramente na sua crise identitária ao negar e renegar a existência da África no povo brasileiro, povo este que faz parte de suas entranhas e sangue. Mas quando a não aceitação da nossa existência negra é dirigida à minha filha aí RODO A BAIANA!

São vários exemplos que poderia citar, mas vou me deter a apenas alguns:

Em 2007, eu, recém-chegada, marinheira de primeira viagem, única moçambicana, eis que a saudade do meu povo se aflora e sozinha me sentia sem norte, mas firme e forte, pois os meus ancestrais sempre estiveram e estão comigo. Uma bela tarde, de um dia comum, minha filha, começando a dar os primeiros passos, dos seus oito meses de vida, assim como outras mães, sai do apartamento para deixá-la brincar com outras crianças na companhia de suas mães.

Eu, atenta, ela veio ao meu encontro, ainda com passos não firmes e palavras ainda não certas, disse: Água, mamãe, água! Saí, fui buscar a mamadeira com água, e deixei a menina fora brincando na esperança de que as mães que estavam no pátio pudessem prestar atenção. Quando saí do apartamento com água, vi a menina caída, de rosto para baixo e os meninos pisoteando-a e dizendo: SUA NEGUINHA, VOLTA PARA SUA TERRA, VOLTA! VOLTA PARA ÁFRICA! As palavras sempre acompanhadas pelas pisadas nas costas dela, que estava caída, sem proteção e indefesa!… Peguei-a imediatamente, sem proferir uma palavra sequer, coloquei a menina às costas (forma moçambicana e de outros países africanos de carregar crianças). Não mais a deixava só no pátio. Como minha rotina era de estudos, trancava a porta e abria a janela para que ela brincasse com os gatinhos e pássaros que sempre apareciam do lado da nossa janela. E mais um dia, ela brincando com os bichos, eis que aprece uma das crianças do prédio, com um balde cheio de areia e jogou no rosto dela. A areia encheu seus olhos, boca, nariz e se espalhou pela casa adentro. Um dos pais estava no pátio lavando um carro. Viu a cena e nada fez. Horas depois, eis que apareceu uma das mães, veio pedir desculpas e pediu para varrer a casa que ainda não havia tirado a prova do crime. Eu disse que não precisava apenas deixei para que pudessem ver.

Sonia e Filha

Levando a vida na esportiva, mesmo com pedras e espinhos por tirar na caminhada, lá seguimos.

O segundo episódio a relatar, de tantos outros acontecidos, foi recentemente, em setembro, mais uma vez com minha filha. Um belo domingo, ela estava brincando na companhia de duas crianças brasileiras do prédio. A brincadeira foi de pintura. A arte que construíram, inocentemente, colocaram na parede da área comum do prédio onde moramos. A mãe de uma menina convidou-a para almoçar com sua família. Autorizei-a. Lá se foram e eu continuei fazendo os deveres de casa e de estudante. Quando saí vi a obra feita por elas e esperei que voltassem do almoço para que juntos pudéssemos limpar e refletir sobre o que elas haviam feito, pois não se deve fazer (educação). Sem saber que elas já tinham chegado do passeio, a síndica do prédio apercebeu-se da chegada das crianças e chamou-as para procurar saber quem havia pintado e por que pintaram o pedaço de 30cm da parede do prédio. Isso mostra que estava de tocaia para chamar a menina e atormentá-la. A minha filha respondeu que estavam protestando pela retirada do sofá onde brincavam (o sofá ficava num recuo da área comum, na porta do meu apartamento e foi objeto de investidas da síndica para que fosse retirado, até que o doei a uma pessoa que soube aproveitá-lo. A justificativa da síndica era de que não se devia manter coisas nas áreas comuns. Achei estranho, pois quase todos moradores têm alguma coisa na sua área: plantas, pratos de comidas de animais, materiais de construção, moto…). Ela se dirigiu de forma grosseira e falou alto pra quem quisesse ouvir “Por que não vai fazer isso no país dela?”. Uma pessoa querida estava dentro do apartamento e com a porta aberta, ouviu na íntegra a fala da síndica, dirigida à minha filha, a única estrangeira do prédio, embora outras crianças, brasileiras, tivessem praticado o mesmo ato de pintar 30 cm de parede. Foi procurar saber o que havia acontecido com a criança, pois para ter proferido tais palavras, só poderiam ser para ela, uma vez que é a única criança estrangeira e africana/moçambicana. Ela e a filha, agressiva e arrogantemente não demonstraram qualquer constrangimento pelo que pensavam e falavam, inflamando a discussão aos gritos. Informadas de que se tratava de xenofobia e do seu conceito, uma das espécies dos crimes de ódio, mantiveram seus posicionamentos. A síndica disse que não sabia que não podia dizer isso, mas não voltou atrás nem pediu desculpas. Um outro filho, que estava no apartamento, viu a gravidade do acontecido, pediu a mãe para que pedisse desculpas. Recusou-se mais uma vez, bem como a filha. Em vez disso, afirmaram ter quatro advogados e ameaçaram chamar a polícia. Em seguida chegou um outro filho, já visivelmente alterado, visando a proteger sua mãe e a nos intimidar. Mas não nos intimidamos. Horas depois o filho mais sensato, que já havia intercedido para apaziguar, foi bater à nossa porta pedindo desculpas pela mãe e pela irmã.

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Mediante esses depoimentos, que só são alguns exemplos do que vivi e vivo, não quero dizer que apenas fui apedrejada, tenho que frisar que também fui/sou acarinhada, reconhecida e respeitada. Porém é importante que sublinhemos mais uma vez, a necessidades das mídias brasileiras darem um pouco de atenção ao Continente africano e seu povo (nativos e descendentes), não tanto nas coisas ruins, as quais quando acontecem tomam um eco imediato, mais que nas coisas boas, que são inúmeras e ocorrem todos os dias. Seria um grande serviço que prestariam ao aumento da autoestima de todos os afro-brasileiros, cujas raízes, o seu cordão umbilical, os seus primeiros cabelos cortados após o nascimento encontram-se enterradas na África, o berço da Humanidade.

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Para conhecer mais sobre o trabalho da bela Moçambicana acesse: Mwany O filme

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